
Leituras Bíblicas: Josué 24.1-2.15-18 e João 6.60-69
Diariamente somos confrontados com as opções que a vida nos põe diante de nós. Diariamente somos questionados seja pela mídia, seja pelos nossos mais próximos, seja pela nossa própria família maior em relação às nossas opções. Ninguém passa por esta vida sem optar por um ou por outro caminho. Cada vez mais, as opções não são do tipo “um ou outro”, pois se multiplicam exponencialmente. Não estamos aqui refletindo sobre as opções de cores de roupas, dos tipos de maquiagem, dos tipos de carros, dos estilos de casa, do corte de cabelo... Não! Estamos aqui refletindo sobre opções de vida, escolhas que vão muito além da nossa aparência física ou o bairro que residimos.
Não estamos aqui refletindo sobre as opções ditas supérfluas, por mais aparentemente importantes elas podem ser; tais opções são superficialidades, fazem parte da capilaridade da existência. Nós estamos aqui para meditarmos naquelas opções que nos direcionam a existência. Das opções que implicam um melhor viver ou um péssimo viver. A Igreja jamais nos interpela nas superficialidades da vida... São bobagens sobre as quais não necessitamos de reflexão séria, na verdade, as opções fundamentais, depois de escolhidas, determinam o superficial, o capilar.
A primeira leitura, retirada do Livro de Josué, põe diante dos nossos olhos uma assembléia do povo de Deus reunido em Siquém, no centro da Palestina, sob o comando do líder substituto de Moisés. Josué reúne o povo ali e põe diante do povo duas opções fundamentais da vida: eles devem escolher entre servir ao Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó ou aos outros “deuses” sejam esses os ídolos de Canaã ou da Mesopotâmia. Josué e sua família já escolheram: servirão ao Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó, pois Ele já demonstrou, através da História, que é Deus Libertador. Mais que isso: é Provedor, é Soberano, é Ajudador, é Aquele que se interessa a tal ponto por aqueles que Ele ama que até mesmo os alimentou com pão e carne no deserto. É Deus Protetor, pois seja como nuvem, seja como coluna de fogo, protegeu Seu povo enquanto este peregrinava no deserto. Este Deus é Gracioso, pois age em Graça com pessoas que não merecem seu amor, providência e proteção, pois assim que apareceu uma oportunidade, fizeram um ídolo de ouro, um bezerro, para adorarem. Este Deus ama incondicionalmente. Este Deus também perdoa, esquece, joga no “mar do esquecimento” os pecados do povo e não os trata segundo o que eles merecem, mas segundo Seu amor e misericórdia.
O Livro de Josué não é um livro de História. É um livro de doutrina. Não está preocupado com os fatos, se eles ocorreram assim ou assado. O autor do Livro escreve desde uma perspectiva teológica, não histórica, mas usa da história para ensinar ao povo que se encontra no VII século a. C., data na qual foi escrito o Livro. Neste contexto, o povo do Senhor estava passando por sérias dificuldades existenciais. Nabucodonosor (604-562) seria o fim, quando tomaria Jerusalém, arrasaria a cidade (com ela o Templo) e levaria a elite do povo de Judá para o exílio. Mas antes dele, antes da Babilônia, a Assíria subjugou o povo de Deus. Os ídolos destes povos foram levados à Terra Prometida e eles os adoravam e esqueceram-se do Senhor ou serviam aos dois ao mesmo tempo. Tendo este pano de fundo, este contexto histórico, o autor deuteronomista do Livro de Josué, relembra ao povo do seu tempo o que tinha acontecido no distante século XII a. C., quando seu líder Josué, reuniu as tribos em Siquém e colocou diante deles as escolhas fundamentais que eles tinham que fazer. Relembrou que líder e povo escolheram servir ao Senhor que os libertara da escravidão; não escolheram como agora fazia os descendentes, os ídolos, pois foi Deus, não os ídolos que os libertou e protegeu.
O povo reunido sob a autoridade de Josué em Siquém fez a melhor escolha! Já estava mais que provado para eles, a história era a testemunha mais eloqüente, que o único Deus era a única opção. Desta forma, o autor suscitaria no coração do mesmo povo, mas em outro tempo, o desejo sincero de fazerem a mesma escolha que seus pais fizeram.
Tal escolha (servir ao Senhor ou servir aos ídolos) ainda nos é posta diante dos olhos a nós, seres humanos do século XXI. Muitos são os ídolos atuais! Seus nomes não é mais Baal ou Moloque. Seus nomes atuais são bem conhecidos e desejados, na verdade muitos suspiram por eles: dinheiro, fama, poder, autosuficiência, glória, sucesso a qualquer custo, egoísmo, vaidade, transitoriedade, números superlativos, palcos, ribalta, grifes, jóias, carros de luxo, mansões, o melhor emprego, o mais alto posto, o melhor salário, o/a amante dos sonhos, a beleza exterior, a família (sim, ídolo para muitos!), uma personalidade que se destaca (pastores e pastores, apóstolos, bispas, fundadores de igrejas, papa, padres, atores e atrizes, cantores e cantoras etc.) e até mesmo a religião!
Fato é que são muitos os ídolos de hoje!
A interpelação que as Escrituras nos faz hoje através do livro de Josué é a mesma: a quem vocês querem servir? Quem vocês escolhem: Deus ou os ídolos? Quem tem sido o seu senhor?!
Atentem: outra é a nossa geografia, outro é o nosso tempo, outro é o nosso modo de vida, nossos valores ampliaram-se, nossa política não é a deles, nossa economia não é tribal, mas global; todavia, mesmo é o coração humano! Mudou o tempo e o espaço geográfico, contudo, o ser humano ainda hoje corre atrás dos ídolos!
De fato, a opção de servir ao Senhor ou servir aos ídolos nos é posta diariamente e diariamente a escolha tem que ser feita! Diariamente temos de optar e essa opção determina o tipo de vida que levamos, se é que podemos chamar de vida a existência daqueles que correm atrás e servem aos ídolos de hoje!
Qual tem sido a sua opção diária? Você tem escolhido o Senhor Deus que já demonstrou na história e na tua biografia mesmo que é Deus Gracioso, Libertador, Protetor, Provedor etc. ou você tem escolhido os inúmeros ídolos deste mundo, tentando sobreviver desgraçadamente nesta existência, agarrado neles? Qual tem sido a consequencia imediata para a sua vida que está relacionada à escolha que você tem feito? Você tem verdadeira felicidade ou aquela alegria qual uma nuvenzinha que passa rapidinho? Você é seguro ou vive na insegurança porque tem medo de tudo e de todos? Desespera-se diante da dor, da doença, da calamidade, da tempestade que assola sua vida e faz balançar seu barquinho ou ainda que você ande pelo vale da sombra da morte, não teme? Você goza dos frutos do seu trabalho ou somente tem acumulado para traças roerem e os ladrões levarem? Caminha por esta cidade com paz no coração ou vive amedrontado pela bala que sempre se perde no corpo de alguém que pode vir a tombar sem vida ao chão? Tens pavor da morte?
Tais perguntas precisam ser, sinceramente, respondidas. Tais respostas dirão quais têm sido suas escolhas.
Quando escolhemos os ídolos, medo, insegurança, pavor, doenças na alma e no corpo são as conseqüências. Quando escolhemos o Senhor, o mesmo Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, somente o que é vida, ou seja, segurança, destemor, paz, alegria, força, sabedoria, discernimento, vida enfim, é a consequencia!
Tal qual o povo que estava com o Senhor Jesus naquela tarde em Cafarnaum, nós também estivemos nesses últimos cinco domingos, ouvindo a mesma palavra que eles ouviram. A diferença é que eles O ouviram fisicamente, nós, pelo evangelho de João (capítulo 6). Em todos esses domingos passados, ouvimos Jesus dizer que Ele é o Pão da Vida, que quem come de sua carne e bebe de seu sangue, permanece Nele e tem a vida eterna. Ouvimos que por um ato de generosidade de um rapaz, pães e peixes foram multiplicados e alimentaram uma multidão. Sabemos, pela leitura de hoje, que aqueles ouvintes perceberam, entenderam que Jesus colocava diante deles uma escolha tal qual Josué colocou diante do povo de Deus reunido em Siquém, uma escolha.
Alguns, na verdade a maioria dos ouvintes de Jesus, por terem sido saciados de pão, viram-No com os olhos da carne tão somente. Viram-No como um messias político, que expulsaria os romanos do seu território, faria guerra por Israel, estabeleceria um reino tão forte e rico como o de Davi, firmaria o trono em Sião (Jerusalém), governaria a Terra e todos os povos viriam à Jerusalém, como veio antes a rainha de Sabá, para pagarem tributo ao rei das nações. Contudo, sabemos que Jesus não era este tipo de Messias, Ele mesmo declarou: meu reino não é deste mundo.
Satanás já O havia tentado no deserto com as glórias humanas e passageiras. Já tinha ofertado todos os reinos, todos os tronos, todo o poder. E ele rejeitou tudo isso para obedecer a vontade do Pai e a vontade do Pai não passava pelas glórias passageiras do mundo, antes, passava por um trono eivado de ignomínia, a cruz, a cadeira elétrica do I século, a injeção letal do Império Romano.
Ele, Jesus, não é o messias político, é o Servo Sofredor de que Isaías profetizou e que seus seguidores identificaram como sendo Ele, pois foi humilhado, esmagado, torturado, até que saiu a última gota de sangue e então morreu. A aparente derrota da morte escondia a bênção da ressurreição, a única vitória que interessa e que O tornou rei, messias, não somente de Israel, mas do Universo!
Os ouvintes da palavra transcrita pelo autor do Evangelho de João não sabiam, como nós sabemos, que Jesus morreria numa cruz e venceria a morte, triunfando sobre ela na cruz, concedendo, por esta via, a vida que todos nós almejamos. Nós, portanto, estamos em vantagem diante deles. Contudo, eles ouviram que ali estava o Pão da Vida, cuja carne e sangue eram alimento que concedia vida eterna. A despeito disso, não creram Nele, na verdade O abandonaram, inclusive seus discípulos:
“Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (Jo 6.60-63).
“À vista disso, muitos o abandonaram e já não andavam com ele” (Jo 6.66).
Então, Jesus lança a pergunta, a interpelação que é escolha: “Porventura, quereis também vós retirar-vos?”
A pergunta de Jesus para os “Doze”, é a pergunta de Jesus para nós, bilhões de seguidores do século XXI: não queremos já cientes de tudo o que Ele nos propôs, também nos retirarmos? Não queremos também abandoná-Lo pelos ídolos deste mundo que nos soam mais “fáceis”? Não queremos o estilo de vida e os caminhos que os ídolos nos propõem? Não preferimos viver segundo a lógica do mundo e esquecer a lógica do reino de Deus?
Pedro é a voz de todos os fiéis seguidores de Cristo, de todos os que, diante das escolhas que temos, escolhem servir Jesus: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.68-69).
E você? Você também tem crido que Jesus é o único que nos conduz à vida e vida em abundância? Você também tem conhecido, não apenas crido, desde sua própria vida, que Jesus é o único que pode nos proporcionar vida verdadeira?
Se você, até o dia de hoje, tem escolhido os ídolos e não encontrou neles a vida verdadeira, posto que isso seja impossível. Se você que tem escolhido os ídolos, mas tem experimentado dor, angústia, desespero diante da vida. Se você que tem escolhido os ídolos, mas não tem prazer real, felicidade e alegria constante, ainda que em meio à dor e ao sofrimento... Escolhe hoje a Vida! Esta você só encontrará em Cristo Jesus, o Pão da Vida, o que tem as palavras de vida eterna! Quem é o seu Senhor? Para onde você tem ido?
Rev. Márcio Retamero



