terça-feira, 25 de novembro de 2008

Cristo - Rei do Universo




DOMINGO DE CRISTO REI DO UNIVERSO

ÚLTIMO DOMINGO DO ANO LITÚRGICO

Sermão pregado na Comunidade Betel do Rio de Janeiro em 23/11/2008

Texto: Mateus 25.31-46

Nos últimos três domingos estamos estudando o capítulo 25 do Evangelho de Mateus. Este é um capítulo escatológico do Evangelho. Jesus está vivendo seus últimos dias em Jerusalém, em breve será morto no Monte Calvário. Suas últimas palavras aos seus neste contexto falam da parusia, da sua segunda vinda, do seu retorno à terra. Não mais como o Servo que sofre, mas como o Senhor do Universo, que desde a Ascensão, vive à direita do Pai, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos, conforme professamos no Credo Apostólico.

O local da pregação desse sermão é o Monte das Oliveiras (Mt 24.3) e tudo o que Ele aqui fala é resposta à pergunta dos seus discípulos: “”Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século” (Mt 24.3b). Então Ele os responde com o que chamamos de “Sermão Profético”: falará sobre o princípio das dores, sobre a grande tribulação, sobre a vinda do Filho do Homem, recorre às parábolas para se fazer entender (a da figueira, a do servo bom e mal, a das dez virgens, a dos talentos, e termina com a descrição do grande julgamento que é o nosso tema neste domingo.

A Igreja nos convida hoje a celebrarmos a majestade de Cristo Jesus. A nos lembrar que Ele recebeu do Pai, pela Sua morte e Ressurreição, a potestade, a honra e o Reino (Ef 1.20-21). Ele é Rei em nossas inteligências pois é a nossa fonte de Verdade. É Rei em nossas vontades, porque Nele a nossa vontade está submetida à vontade de Deus, e esta é sempre boa, perfeita e agradável para nós, os que cremos. Finalmente é Rei em nossos corações, porque Ele mesmo os tomou para Si quando nos alcançou com a Sua Graça Irresistível e nos atraiu para Ele. Jesus é o nosso Rei, é o Rei do Universo.

O Ano Litúrgico antecipa-se ao ano civil. Se neste o dia em que comemoramos o início de um novo ano é o 01 de janeiro, no tempo da Igreja o início do ano tem início com o Advento, estação que inauguraremos no próximo domingo. A razão pela qual celebramos hoje, no último domingo do ano litúrgico a festa de Cristo, Rei do Universo, não é outra senão a nos recordar que tipo de Reino é o de Cristo, que Rei Ele é e como nós, cidadãos deste Reino, devemos proceder enquanto aqui peregrinamos.

A Monarquia fora fundada em Israel com Saul (1ª Sm 10), este não fixou dinastia, e Davi foi sagrado Rei e firmou descendência (2ª Sm 5). Quando a Babilônia invadiu o Reino e levou cativos a elite deste reino (2ª Cr 36.17-21), lá em terra estranha, os profetas do Senhor, em Seu Nome, anunciavam que a descendência de Davi seria restabelecida e que o Servo do Senhor, o Messias, seria enviado à Israel e tudo seria restaurado, este reino não teria fim e de Jerusalém sairia a Lei e a Paz que reinaria no mundo.

Nós cristãos cremos que este Messias é Jesus, o Filho de Deus, nascido da Virgem. Na verdade, segundo os evangelhos, Ele mesmo declarou-se sê-lo, mais de uma vez, o Rei, o Filho do Homem (Dn 7.13-15), o Prometido. Conforme a profecia de Isaías, foi rejeitado, não reconhecido, e João diz no prólogo do seu Evangelho que Ele veio para os seus mas os seus não O receberam.

Um Rei nascido na pequena Belém de Judá, que tivera como berço uma manjedoura, como primeiros visitantes pastores de ovelhas (gente desprezada, excluída, que não podiam ser testemunhas em tribunal porque sua palavra de nada valia), obscuros reis orientais que lhe trouxeram presentes (portanto também excluídos pois estrangeiros não poderiam participar plenamente do culto ao Deus de Israel) e como pais um carpinteiro e uma camponesa de Nazaré, cidade tão desprezada quanto odiada (“pode vir algo bom de Nazaré?”).

Este Rei, ao invés de procurar os donos do poder para exercer seu Reino, foi buscar a João, o Batista, um marginal que vivia às beiras do Jordão anunciando que aquele que haveria de chegar, já estava, e que por isso, o povo deveria se arrepender, fazer a meia-volta e se lavar para a remissão dos pecados. Com João andava um bando de gente também esquecida, as “ovelhas perdidas da Casa de Israel”, tratadas como um monte de nada pelos donos da religião, os escribas fariseus e os saduceus. Batizado por João, Ele então inicia Seu ministério público e anuncia: O Reino de Deus já está no meio de vós! O tempo da Graça tem início e cegos, coxos, surdos, mancos, epiléticos, paralíticos e todos os doentes que Ele encontrava em suas idas e vindas, Ele os curava. Tocava os mortos (o que o tornava impuro aos olhos da religião) e os restabelecia a vida. Expulsava os demônios daqueles que se tornaram moradas deles e a eles estavam presos, cativos, submetidos. Tocou em mulheres, com elas conversava sozinho, com elas andava e elas até mesmo o sustentava com seus bens (Lc 8). Como seu círculo mais chegado, escolheu desde simples pescadores a ricos cobradores de impostos. Entrou na casa de gente odiada como Zaqueu, com eles se sentou à mesa , comeu e bebeu, o que significava intimidade e fraternidade com esses. Usava como cátedra, como púlpito, barcos de pesca ancorados no Mar da Galiléia, a terra dos gentios, e seja num monte, num prado ou no Templo, centro da religião de seu país, falava acerca do Reino de Deus, cujo representante Ele era. Nessas ocasiões, Ele ensinava não como os escribas fariseus, pois em sua fala, em sua postura, em seu discurso havia autoridade e os sinais que acompanhavam este marginal profeta era evidentes de que Ele era um homem especial. Quando viu a multidão com fome, os alimentava, gente que parecia ovelha sem pastor. Perdoava pecados, cúmulo da heresia, e não se importava com os códigos legais que proibiam obras aos sábados ou tomava alimentos com as mãos sujas porque o que importava, para este que se intitulava Rei era a pureza do interior.

Quando falava acerca dos valores de Seu Reino, resumia tudo em dois mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Para Ele nisto consistia toda a Lei e os profetas. Aos donos da religião, os que controlavam o povo, Ele os chamou de raça de víboras, hipócritas, sepulcros caiados, serpentes, falsos e manipuladores. Num dia, entrou em Jerusalém como Rei para ali encontrar a morte infame, sob Roma, que O julgou e condenou à pena capital reservada aos ladrões e agitadores da ordem. No dia em que entrou na Cidade de Davi como Rei, não montava num corcel puro sangue, mas num burrico, jumento, filho de jumenta. Seu séquito “nobre” eram crianças e mulheres, homens desprezados que deitavam ao chão suas capas cheias de poeira para que Ele as pisasse. Desmontou do burrico, entrou no Templo, pegou um azorrague e desceu o cacete nos que faziam da Casa de Oração de Seu Pai um covil de ladrões, mercadejando o que não se mercadeja: as bênçãos, o favor imerecido do Senhor.

Por tudo isso e muito mais, Ele não foi reconhecido como Rei, pois não se portava como um, não morava num palácio, não tinha pedigree, criticava os poderosos, não tinha onde reclinar a cabeça, andava com ladrões, prostitutas e com uma corja que não merecia nem um copo d’água! Não, Ele não podia ser Rei de Israel, não podia ser aquele Messias profetizado por Isaías e por outros profetas! Sob severas acusações o levaram ao poder imperialista pedindo que fosse morto como exemplo. Diante do poder imperialista falou pouco e quando perguntado se era mesmo Rei como dizia que era, disse em poucas palavras: sim, eu sou! Abandonado e negado pelos seus, recebeu sentença de morte. Morte de cruz. Enfim foi reconhecido como Rei: a cana que usaram para o surrar, lhe deram como cetro. Uma capa carmesim o puseram às costas. Foi coroado, como Rei que era, não por uma coroa de ouro e pedras preciosas, mas por uma de espinhos que lhe cravou a fronte, fazendo dali descer sangue real. Como trono, teve a cruz, a pena capital, a “cadeira elétrica” do Império Romano, injeção letal reservada aos piores da sociedade.

“Mas a Cruz não conseguiu vencer o autor da minha vida!” Ao terceiro dia, ressuscitou, aparecendo aos seus, perdoando, confirmando, comissionando a anunciarem seu reino e o valor deste reino. Voltou para o Pai, de onde veio, prometendo que voltaria e que naquele dia, joio e trigo seriam separados, bem como ovelhas e cabritos e que enfim separados, seus eleitos viveriam um novo céu e uma nova terra!

Enquanto aqui esteve, deixou aos cidadãos do Seu Reino uma Carta Magna, uma Constituição, que Mateus registrou nos capítulos 5, 6 e 7 e que seus seguidores deram o nome de Sermão do Monte. Declarou, mais de uma vez, como o texto de hoje nos mostra que ao retornar e separar cabritos e ovelhas, teria como prumo, como medida, como Lei, o Amor. Essa era a sua medida! É por essa medida que nós, seus seguidores de hoje, seremos medidos quando Ele retornar.

Diante destas declarações do nosso Rei que lemos hoje, não cabe outra pergunta senão uma: tem a Igreja, sinal visível, palpável deste Reino e deste Rei, cumprido a Sua Lei?

Parafraseando nosso Presidente Lula, “nunca antes na história deste país” o nome de Jesus foi tão falado! Basta sintonizar nossos aparelhos de rádio, ligar nossa TV a qualquer hora do dia ou da noite, que lá estará alguém com a Bíblia na mão, falando o nome Dele. Em cada esquina, uma igreja. Nossos vizinhos, aos domingos e dias de semana, bíblia em punho, saem bem vestidos para essas “casas de oração” e dizem que vão louvar, bendizer e aprender Dele.

Contudo, proporcionalmente a tudo isso, o nome Dele jamais foi tão vilipendiado! Usam seu nome como chave de banco, como magia, como amuleto, como reivindicação ao leão do imposto de renda (“Restitui, eu quero de volta o que é meu!”). Enquanto isso, “o amor de muitos se esfria” e a pergunta que não quer calar é: “quando o Filho do Homem voltar, achará fé na terra?”

De igual modo, como igreja inclusiva, como sinal visível da Graça e do Reino no mundo, também temos de nos perguntar: o que estamos fazendo no sentido de cumprir a Sua Lei? Temos dado comida ao que tem fome? Bebida a quem tem sede? Abrigo ao forasteiro? Vestes a quem está nu? Temos visitado os que estão enfermos e os que estão presos? Não precisamos buscar os que assim vivem muito além não! Ao redor de nossa comunidade, aqui mesmo no centro do Rio de Janeiro, Jesus sofre naqueles que assim vivem – e o que estamos fazendo? Louvamos tanto seu Nome com canções que falam de intimidade, falamos tanto com Ele em nossas orações, até mesmo o comungamos no pão e no vinho dominicalmente! Abrimos em família as Escrituras que nos falam Dele e ouvimos semana após semana do Seu Evangelho! E o que isso tem produzido em nós? Quais os frutos?

Basta de arremedo de Evangelho! Chega de pervertemos o Senhor e Sua Palavra! Chega deste “evangelho” que só serve para alimentar os egos, produzindo mais egolatria! Basta de usar o Nome do Rei como chave de banco para angariarmos aqui aquilo que Ele mesmo falou que não deveria nos preocupar! Chega de cançoeszinhas melosas que falam de uma intimidade falsa! Quão distantes do Trono estão aqueles que pensam que estão Diante do Trono de Deus!

Evangelho é Palavra de Graça aos que recebem e de juízo aos que rejeitam! No Reino, que é o mundo e não apenas a Igreja, só existe dois tipos de cidadãos e cidadãs, os cabritos, que ficarão à sua esquerda e que embora finjam ser ovelhas ouvirão: não vos conheço! – e as ovelhas, que ficarão à sua direita e ouvirão: vinde, benditos de meu Pai! Porque tive fome e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me!

E, se você é tão cínico igual aqueles que ousaram lhe perguntar onde é que podemos O encontrar com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo e preso, saiba que Aquele que você diz ser “seu Senhor, Rei e Salvador”, vive no teu próximo, que sofre as mazelas, as injustiças, a corrupção de um mundo que dominicalmente O louva e ora em seu Nome, mas cujo coração vive Dele apartado, num teatro trágico que só adoece quem deste palco participa! Evangelho é ação movida pelo amor. Evangelho é Jesus vivendo no outro. Evangelho é a construção da civilização do amor, cujos pedreiros não são os anjos, mas nós mesmos, homens e mulheres que por Ele foram alcançados! Que assim seja em nós, na Igreja e nos quatro cantos da Terra onde o Nome de Jesus é reverenciado como Rei. Aleluias ao Cristo, Rei do Universo!

Rev. Márcio Retamero
www.betelrj.com