
NO BATISMO JESUS É DECLARADO UM SER HUMANO COMPLETO
Marcos 1,4-11
Marcos 1,4-11
Com a comemoração do Batismo do Senhor, no Calendário Cristão, acompanharemos o Evangelho, inauguramos o Tempo do Ministério de Jesus Cristo, como as igrejas cristãs assumem. Deus tomou a iniciativa de vir até nós assumindo nossa humanidade, realizando o esvaziamento divino (kenosis), revelando-se como o Deus que nos comunica sua divindade, sim, mas principalmente como Aquele que nunca nos abandonará nem nos deixará à mercê das forças cegas, dos sistemas de pensar destrutivos, impiedosos e implacáveis, que parecem comandar o mundo. É necessário, portanto, dissociar o Batismo sacramental, da Igreja, do Batismo do Senhor Jesus.
A humanidade de Deus corretamente compreendida deve ter o significado de que Deus quer relacionar-se com o ser humano, no batismo de Jesus. Deus quer ter com o ser humano um relacionamento de reciprocidade, no batismo. De Deus vem a Promessa e o Mandamento, que se chamará “imperativo divino”: “Ouve, ó Israel, eu sou o teu Deus” (“shemah Israel, yahweh elohenu”). A liturgia, então, celebrará corretamente a intervenção e a ação de Deus em favor do homem e da mulher, no batismo sacramental dos crentes. Aqui, além do mais, está a força teológica da Encarnação entre os grandes mistérios da nossa fé (sacramentum ou mysterion).
O batismo significará um compromisso de comunhão que mantém o homem humano, enquanto Deus quer tão somente expressar-se em liberdade, na gratuidade que lhe é característica, na qual Ele não quer nada mais nada menos que ser “humano”. Ora, até recentemente os crentes quiseram sobrepujar essa concepção na afirmação tão somente da “divindade de Deus em Jesus”, a qual é recusada, (negligenciada?), na encarnação de Jesus Cristo. Um Deus que se torna homem em carne e osso não serve... Neodocetismo? Nos primeiros séculos da Igreja de Cristo, crentes recusavam-se a aceitar que o Jesus da Bíblia fora um homem completo. Depois, até mesmo grandes pensadores, como S.Agostinho (cf. Lutero e Calvino, seus discípulos), impuseram a crença de que só a “alma” de Jesus ressuscitara, e nossas almas é que ressuscitarão, como Ele. Mas Jesus é homem histórico, ser-humano, não aparentemente, enquanto “esconde-se” sua divindade? Não.
Pronunciar o nome de Deus significa envolver-se com Deus; reconhecer que Ele se ‘des-cobre’, se ‘des-venda', enquanto se 're-vela'. Tirar a maquiagem cênica, teatral, da ficção espiritualizada de sua divindade é tudo que Jesus Cristo quer demonstrar, no Batismo: “Eu sou um de vocês, estou com vocês, assumo minha humanidade, e não abro!, proclama o Espírito de Deus em toda solidariedade.
A cena do Batismo de Jesus nos relatos evangélicos vem romper o silêncio do Deus que todos gostariam de pensar como entronizado confortavelmente no céu, em ambiente adequadamente climatizado. Mas, “este ser humano é o filho da minha alegria”, pronuncia a voz que vem do espaço desconhecido. A Graça é anunciada à viva-voz, em sua plenitude: chegou a libertação da carne humana subjugada e enfraquecida, estruturalmente pecadora, como alternativa ao desespero, para homens e mulheres imersos na noite dos tempos de opressão, escuridão que parece nunca terminar (Richard Shaull dizia pra gente). Contudo, é preciso dar atenção ao sentido vocacional que o Evangelho imprime ao Batismo do Senhor.
Toda vocação, "vocare", então, dependerá da vontade e do querer divino, inclusive das conseqüências desagradáveis e dolorosas quanto ao sofrimento e a morte, ambos inerentes à condição humana de quem é chamado. Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) tem como conseqüência a morte sob sofrimento cruciante, também Deus morrerá para testemunhar o valor de sua Causa. O Batismo de Jesus é também o início de sua caminhada rumo à crucificação. A entrega incondicional só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus solidário.
A vocação divina, mais que uma vocação profética, é construída sobre modelos apocalípticos, uma abertura do céu, espaços de redenção e libertação desconhecidos. Graças a ela uma Palavra definitiva produz, ao mesmo tempo, uma nova Criação. A criação mais recente, como em Gn 1, torna o Espírito presente (ruah) em forma de “uma ave pairando sobre a Criação” (parece-me que há um testemunho rabínico desse tempo que fala também de uma “pomba”, como no texto de Mateus...). Também a literatura sapiencial da Bíblia Hebraica (tanach) mostra a capacidade de uma intervenção divina para se realizar o intento divino de humanizar-se; de Deus querer ser como o homem, através de outras atitudes e de outros conhecimentos (a recíproca, porém, é mais comum entre nós: "o homem querer ser como Deus", como nos lembrava Voltaire, um filósofo paradoxal, crente e cético ao mesmo tempo).
A entrega incondicional de Jesus pelo Batismo só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus, na alegria da solidariedade que compartilha a dura condição de todos os que sofrem em conseqüência do “espírito diabólico” que reina, e que oprime os seres humanos. É assim que a convivência de Deus se faz com todos os homens e mulheres, de modo que o totalmente Outro viva na carne de cada um como um "igual a qualquer outro". E o evangelista João completaria: “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. O logos é Palavra, que é também “davar” (hebraico:davar, grego:logos, Palavra...). Trata-se aqui de realidades concretas, e não de abstrações filosóficas. Com a justiça tudo tem sentido, porque a Palavra penetra e é ela que cria os meios, as ações que libertam consciências. Assim se experimentam o verdadeiro sabor da vida de fé e da liberdade em Cristo. A Escritura está subordinada ao testemunho dos apóstolos sobre o batismo, não à letra morta (catecismo e doutrina da igreja), nem expressão doutrinária da Lei. A Palavra viva (davar) concretiza o testemunho das Escrituras, finalmente.
------A humanidade de Deus corretamente compreendida deve ter o significado de que Deus quer relacionar-se com o ser humano, no batismo de Jesus. Deus quer ter com o ser humano um relacionamento de reciprocidade, no batismo. De Deus vem a Promessa e o Mandamento, que se chamará “imperativo divino”: “Ouve, ó Israel, eu sou o teu Deus” (“shemah Israel, yahweh elohenu”). A liturgia, então, celebrará corretamente a intervenção e a ação de Deus em favor do homem e da mulher, no batismo sacramental dos crentes. Aqui, além do mais, está a força teológica da Encarnação entre os grandes mistérios da nossa fé (sacramentum ou mysterion).
O batismo significará um compromisso de comunhão que mantém o homem humano, enquanto Deus quer tão somente expressar-se em liberdade, na gratuidade que lhe é característica, na qual Ele não quer nada mais nada menos que ser “humano”. Ora, até recentemente os crentes quiseram sobrepujar essa concepção na afirmação tão somente da “divindade de Deus em Jesus”, a qual é recusada, (negligenciada?), na encarnação de Jesus Cristo. Um Deus que se torna homem em carne e osso não serve... Neodocetismo? Nos primeiros séculos da Igreja de Cristo, crentes recusavam-se a aceitar que o Jesus da Bíblia fora um homem completo. Depois, até mesmo grandes pensadores, como S.Agostinho (cf. Lutero e Calvino, seus discípulos), impuseram a crença de que só a “alma” de Jesus ressuscitara, e nossas almas é que ressuscitarão, como Ele. Mas Jesus é homem histórico, ser-humano, não aparentemente, enquanto “esconde-se” sua divindade? Não.
Pronunciar o nome de Deus significa envolver-se com Deus; reconhecer que Ele se ‘des-cobre’, se ‘des-venda', enquanto se 're-vela'. Tirar a maquiagem cênica, teatral, da ficção espiritualizada de sua divindade é tudo que Jesus Cristo quer demonstrar, no Batismo: “Eu sou um de vocês, estou com vocês, assumo minha humanidade, e não abro!, proclama o Espírito de Deus em toda solidariedade.
A cena do Batismo de Jesus nos relatos evangélicos vem romper o silêncio do Deus que todos gostariam de pensar como entronizado confortavelmente no céu, em ambiente adequadamente climatizado. Mas, “este ser humano é o filho da minha alegria”, pronuncia a voz que vem do espaço desconhecido. A Graça é anunciada à viva-voz, em sua plenitude: chegou a libertação da carne humana subjugada e enfraquecida, estruturalmente pecadora, como alternativa ao desespero, para homens e mulheres imersos na noite dos tempos de opressão, escuridão que parece nunca terminar (Richard Shaull dizia pra gente). Contudo, é preciso dar atenção ao sentido vocacional que o Evangelho imprime ao Batismo do Senhor.
Toda vocação, "vocare", então, dependerá da vontade e do querer divino, inclusive das conseqüências desagradáveis e dolorosas quanto ao sofrimento e a morte, ambos inerentes à condição humana de quem é chamado. Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) tem como conseqüência a morte sob sofrimento cruciante, também Deus morrerá para testemunhar o valor de sua Causa. O Batismo de Jesus é também o início de sua caminhada rumo à crucificação. A entrega incondicional só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus solidário.
A vocação divina, mais que uma vocação profética, é construída sobre modelos apocalípticos, uma abertura do céu, espaços de redenção e libertação desconhecidos. Graças a ela uma Palavra definitiva produz, ao mesmo tempo, uma nova Criação. A criação mais recente, como em Gn 1, torna o Espírito presente (ruah) em forma de “uma ave pairando sobre a Criação” (parece-me que há um testemunho rabínico desse tempo que fala também de uma “pomba”, como no texto de Mateus...). Também a literatura sapiencial da Bíblia Hebraica (tanach) mostra a capacidade de uma intervenção divina para se realizar o intento divino de humanizar-se; de Deus querer ser como o homem, através de outras atitudes e de outros conhecimentos (a recíproca, porém, é mais comum entre nós: "o homem querer ser como Deus", como nos lembrava Voltaire, um filósofo paradoxal, crente e cético ao mesmo tempo).
A entrega incondicional de Jesus pelo Batismo só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus, na alegria da solidariedade que compartilha a dura condição de todos os que sofrem em conseqüência do “espírito diabólico” que reina, e que oprime os seres humanos. É assim que a convivência de Deus se faz com todos os homens e mulheres, de modo que o totalmente Outro viva na carne de cada um como um "igual a qualquer outro". E o evangelista João completaria: “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. O logos é Palavra, que é também “davar” (hebraico:davar, grego:logos, Palavra...). Trata-se aqui de realidades concretas, e não de abstrações filosóficas. Com a justiça tudo tem sentido, porque a Palavra penetra e é ela que cria os meios, as ações que libertam consciências. Assim se experimentam o verdadeiro sabor da vida de fé e da liberdade em Cristo. A Escritura está subordinada ao testemunho dos apóstolos sobre o batismo, não à letra morta (catecismo e doutrina da igreja), nem expressão doutrinária da Lei. A Palavra viva (davar) concretiza o testemunho das Escrituras, finalmente.
Rev.Derval Dasilio
Igreja Presbiteriana Unida do Brasil
Batismo do Senhor - 2009
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