O GENUÍNO ENSINAMENTO DE CRISTO: PALAVRA E AÇÃO
Leituras Bíblicas: Dt 18.15-20 - 1 Co 8.1-13 - Mc 1.21-28
Moisés foi o Mediador da Primeira Aliança entre o Senhor Deus e o povo de Israel. Ele recebeu do Senhor, que a ele falou e se revelou na sarça ardente, a missão de “fundar” uma nação pela libertação do opressor Egito, onde Israel servia, desde os dias posteriores de José, como escravos. Essa Revelação de Deus e o que dela descendeu, faz de Moisés uma figura ímpar para a história de Israel. Historiadores do mundo todo concordam que Moisés foi, de fato, o fundador de Israel e o fundador da religião de Israel pois até o ministério de Moisés, Israel não tinha conhecimento do Grande Eu Sou como Javé. Foi ele, Moisés, que apresentou o Senhor ao seu povo como Aquele que conduz a história, sendo Senhor dela, aquele que dirige os acontecimentos de modo a conduzir seu povo ao destino que Ele mesmo traçou; este Senhor também é Senhor da Natureza e dela faz uso para cumprir seus propósitos; este Senhor também escolhe e capacita seres humanos para realizar a sua vontade, ainda que não tenha dependência alguma disso. É o Pentateuco, a Lei, que esclarece o que o Senhor exige de seu povo e regulamenta não apenas as relações do povo com seu Senhor, mas também, as relações humanas dentro deste povo. Por tudo isso, a figura de Moisés, seu papel na história de Israel, sua importância, seu significado, não tem, no Antigo Testamento, paralelo! Moisés é citado no Novo Testamento cerca de oitenta vezes! Nenhum outro personagem da Antiga História de Israel foi tão citado pelos autores dos textos que mais tarde se tornariam Escrituras Cristãs. Para a Igreja dos Primórdios, autora dos escritos que hoje compõe o Novo Testamento, Moisés é o instrumento da Revelação primeira de Deus e é também aquele que encarna a figura do Libertador.
Sendo assim, Moisés é, para a Igreja de Cristo, o protótipo de Jesus Cristo. O texto do Antigo Testamento que lemos neste domingo, Dt 18.15-20, lido numa perspectiva cristocêntrica – a chave hermenêutica por excelência para nós, o Povo da Reforma Protestante – aponta para Jesus. É ele o prometido por Iahweh, Aquele em quem o Senhor colocaria as suas palavras, revelando assim a sua vontade, mais que isso, revelando sua imagem, sua face. Por isso que Jesus é maior que Moisés. Se este foi, para o Antigo Israel, aquele que profetizou sobre o Messias, o fundador, o mediador, da aliança da Lei; Jesus é, para o Novo Israel, a Igreja, Aquele que cumpre em definitivo a Lei, o mediador de uma nova e superior aliança, o Salvador, o Senhor. Se traçarmos um paralelo entre Moisés e Jesus, veremos a importância do primeiro e a superioridade, porque é Deus revelado, do Segundo. Dos Evangelhos, é Mateus que faz com maestria este paralelismo mostrando-nos que Cristo completou, em definitivo, a obra que Moisés iniciou.
O trecho de Marcos que hoje lemos (Mc 1.21-28) nos mostra Jesus como o cumpridor definitivo da obra que se iniciou em Moisés. Plenipotenciado pelo Espírito no batismo no Jordão (Mc 1.9-11); fortalecido pelo Espírito na tentação do deserto, sendo provado e aprovado (Mc 1.12-13); o Novo Moisés, Cristo Jesus, Mediador da Nova e Eterna Aliança, inicia seu ministério público (Mc 1.14-45) anunciando, proclamando as Boas Novas, o Evangelho: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho; acreditem que essa boa notícia é realidade aqui e agora” (Mc 1.15). E para que cressem, Jesus não apenas anunciou - e anunciou com autoridade, não como os escribas ensinavam, baseando-se em outras autoridades, e por isso, causava admiração (Mc 1.22 a) – mas também realizou, operou, agiu, colocou em prática, demonstrou, fez, concretizou aquilo que anunciava! Palavra e ação são as faces da Obra do Evangelho conforme Jesus exemplificou.
Na perícope que temos diante dos nossos olhos, Jesus entra numa sinagoga em Cafarnaum, cidade que Ele escolheu para morar durante um tempo, às margens do Mar da Galiléia, também conhecido como Mar de Tiberíades. Ali chegando, num sábado, dia de culto, dia do Senhor, ensinou e ensinou com autoridade o que causou espanto entre os ouvintes, não recorrendo ele a nenhuma autoridade extra de um rabino importante para os que o ouviam, mas anunciava um novo tempo! Tempo que Moisés também tinha anunciado (primeira leitura) e que os profetas que Deus levantou em Israel também tinham anunciado, notadamente, Isaías. O Tempo da Graça, do Favor Imerecido, do cumprimento definitivo da Lei Mosaica.
Como o Moisés do Antigo Pacto, o Novo Moisés, mostrou-se Libertador. Um endemoninhado estava ali naquela sinagoga. Nele, estava representado toda opressão, todo jugo, toda a escravidão de um povo que não conseguia se livrar dos donos do poder deste mundo tenebroso que subjugava, maltratava, empobrecia, depauperava, des-sacralizava, se impunha, enfim, escravizava! Como no tempo de Moisés, Israel novamente estava sob as botas de um opressor, que neste nosso contexto, representava o Mal Absoluto – Roma. Naquele singular ser humano, oprimido por forças do mal, que manifestavam-se nele como uma doença psíquica, que o tornava pária numa sociedade excludente, Jesus viu não apenas a ação do mal no ser individual, mas igualmente, como símbolo do mal que oprimia, porque instalado estava, naquela sociedade. Assim, o Novo Moisés trouxe libertação ao “anônimo eloqüente” do nosso texto, vencendo o mal que nele habitava, libertando-o pela sua Palavra, decretando sua liberdade daquele instante em diante. Não sem resistência. O mal resistiu. Gritou. Afrontou. “Sacudiu violentamente” aquele oprimido, antes de uma vez por todas, sair e ser vencido. Porque o mal resiste e insiste. O mal em ação nos interpela, argüi. O mal não deseja ser vencido, derrotado, ele quer tudo. Seu objetivo é reinar. Todavia, ali diante do mal encarnado estava Todo o Bem Encarnado, o Deus Vivo, o Emanuel, o Deus Conosco, o Messias, o Libertador, o Novo Moisés e diante Dele, nenhum mal pode resistir, seja o mal que habita e oprime seres humanos individualemte, seja o mal que oprime e escraviza seres humanos coletivamente.
Em Jesus, na ocasião do Batismo, diz Joachim Jeremias, foi cumprido o que disse Isaías: “Eis o meu servo que eu sustento, o meu eleito em quem tenho prazer. Pus sobre ele o meu espírito e ele trará o direito às nações... afim de abrires os olhos dos cegos, afim de soltares do cárcere os presos, e da prisão os que habitam em trevas” (Is 42.1.7). Jesus veio para ensinar um novo e vivo caminho. Veio para agir em nome do Pai. Veio para inaugurar o tempo salvífico, o Tempo da Graça, realizando para ensinar, ensinando para realizar, que a Lei que a todos encerra e que é o início da realização da chegada do Reino é uma: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
No belo e eloqüente Sermão do Monte, Mateus constrói em paralelo à antiga Lei, o Novo Ensinamento, a Nova Lei do Cristo, o Novo Moisés: “foi dito..., porém, EU lhes digo...” se na Antiga Aliança a Lei era algo que dependia das exterioridades das cerimônias e holocaustos e mandamentos ideais; na Nova Lei tudo isso é trazido “pra dentro” do ser, para no coração ser instalado e para se cumprir pelo maior dom, pelo maior ideal: o amor.
O amor – bem absoluto – vence o mal absoluto que reina em primeiro lugar nos corações, exteriorizando-se nas ações maléficas que contaminam o ser e a sociedade em que habita, estruturando de baixo pra cima e de cima pra baixo, a escravidão do Mal que mata! Foi por amor que Deus deu seu único filho ao mundo para redimi-lo, libertá-lo. Foi em amor que Jesus ensinou e agiu. É em amor que a Igreja, corpo de Cristo na terra, deve ensinar e agir.
Assim aprendemos com Paulo, que escrevendo aos Coríntios, em sua primeira carta (1 Co 8.1-13), ensina àquela igreja local e através dela à Igreja em todo o tempo e local, que o amor deve ser o dom mais excelente, O Caminho, a justiça, o andar e o ensinar da Igreja. Ao Amor tudo é subjugado! Diante do Amor, tudo relativizado e re-significado. Até mesmo o conhecimento (que se mal usado não traz libertação) que incha e em inchando, subjuga e escraviza. Assim Paulo ensina que o adulto na fé não pode ferir o fraco na fé (que ele não louva mas também não condena, preferindo o amor como árbitro do relacionamento entre o forte e o fraco). A medida de todas as coisas é o Amor. O caminho da realização plena em Cristo é o Amor. DEUS É AMOR.
Hoje, dia em que os eleitos em Cristo se reúnem, para em comum-união, em comum-unidade, partilhar o Pão e o Cálice – Palavra Visível - e pelas Escrituras – Palavra Proclamada, sermos revigorados e alimentados, confirmados na fé e ensinados; o Espírito de Deus que está aqui neste lugar, em nós e entre nós, vem nos trazer à memória o que pode nos dar esperança: que o Amor vence o Mal. Vem nos ensinar como realizar isso a partir do nosso caminhar individualmente e coletivamente como Igreja de Cristo.
Neste dia de festa para todos os cristãos e cristãs, dia do Senhor; para esta Comunidade (comum-unidade) é dia de festa dupla, pois hoje comemoramos os quarenta e quatro anos de existência dessa Comunidade – a Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo e os noventa e três anos do Pastor Emérito dela, em plena atividade ministerial, o Reverendo Domício Pereira de Mattos. Dia muito especial, igualmente, para todos os Reformados do Rio de Janeiro, pois a História desta Igreja e a biografia do seu Pastor, honram, dignificam, enche de esperança e ânimo, a Igreja Reformada Carioca. Esta Igreja e seu Pastor ilustram exemplarmente a obra de Cristo nesta terra, que a Igreja de Cristo, como herdeira, é receptáculo e continuadora, realizadora.
Fundada nos anos 60 por mulheres (que eram a maioria na época, glória a Deus por isso!) e homens cansados do jugo e da escravização pelo Mal corporificados pelos que se acham “donos da igreja” (de “i” minúsculo, por favor), esta Comunidade lutou e resistiu não apenas aos escravos do Mal na igreja, mas, igualmente, aos escravos do mal que se assentaram nos tronos do poder deste mundo, que jaz no Mal, representados, naquela época, pela Ditadura, de infame memória! A Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo resistiu e insistiu na Lei de Cristo, a Lei do Amor, para em Amor caminhar livre do mal, proclamando que o Senhor nosso Deus é Deus de Amor.
Assim caminhando, em amor, esta Igreja foi e ainda é o Lar de comunhão e diálogo entre cristãos e não-cristãos, o que chamamos de ecumenismo, tão odiado pelos seres do ódio, pelos seres que não entendem, porque se escandalizam, com o Amor. Esta Igreja não se apequenou, não se nivelou pelo Mal, mas o venceu pelo Amor, realizando assim, a Obra de Cristo na cidade do Rio de Janeiro. Enfrentou a Ditadura e os seus males sociais; enfrentou os donos da religião; enfrentou com Amor os que lutam pela segregação, pelo preconceito de toda ordem, pela exclusão sistêmica, pelo reino do desamor. Enfrentou e venceu. Enfrentando, pelo amor, experimentou em seu caminhar a promessa de Jesus, o Senhor da Igreja: “as portas do inferno (do ódio, do mal), não prevalecerão (como não prevaleceram) contra ela!” E aqui estamos, em 2009, 44 anos depois, celebrando esta história de amor, construída com o suor e a luta dos seres que amaram e que amam, seres humanos que fizeram do Amor, seu maior ideal, conforme Jesus ensinou e realizou!
Tudo isso também foi possível porque tinha à frente um profeta verdadeiro, que ao ouvir o chamado “Vem e Segue-Me”, deixou tudo e foi pisar nas pegadas de Amor do Mestre da Galiléia, o Jovem Galileu, o Novo Moisés, o Libertador, o Mediador de uma Nova e Eterna Aliança, que em Palavra e em Ação, ensinou em amor e agiu em amor, ensinando com seu exemplo o caminho da construção do Reino que anunciava! Reverendo Domício Pereira de Mattos pisando nas pegadas de amor do Cristo, deixou atrás de si – e as testemunhas são abundantes – um trabalho que dignifica não apenas ele mesmo e sua família, mas igualmente, a história da igreja reformada nesta cidade. Pastor de ovelhas, cuidou e ainda cuida dos descuidados; curou e ainda cura os feridos; anunciou e ainda anuncia as Boas Novas aos encarcerados pelo mal, libertando-os assim da escravidão do mal. Fez do seu ministério e ainda faz, uma obra de amor, seja publicando livros, seja exercendo a docência no púlpito, seja cuidando individualmente das ovelhas que o Senhor da Igreja lhes confiou!
Peregrinos num mundo, mais especificamente, numa cidade, onde o Mal, muitas vezes, parece ter a última palavra; seja nas balas perdidas que matam inocentes; seja na pobreza que cresce e aparece nas favelas; seja na diferença injusta do morro e do asfalto; seja no descaso do poder constituído para com o povo que aqui habita; seja na violência cotidiana que vai desde uma resposta mal dada - flecha cheia de ódio que contamina; seja nas estruturas como também nos indivíduos; quando o mal parecer vencer, todos nós, membros da Igreja de Cristo, seguidores do Deus de Amor, devemos insistir e resistir pelo Amor. Vocês que hoje aqui estão, membros desta Igreja, sejam adultos ou jovens, crianças ou adolescentes, homens ou mulheres, quando desanimados pela ação do mal que parece prevalecer, quando abatidos ou desanimados; vocês têm, como os cristãos de Beréia tinham, os testemunhos das Escrituras, ali registrados os ensinos e as ações do Salvador, que nos ensinam a viver pelo amor, a resistirmos pelo amor e vencermos assim o Mal. Vocês têm o testemunho da história da comunidade de vocês, a Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo, uma história linda, calcada na Mensagem de Amor do Evangelho. Vocês têm a biografia do seu pastor, homem digno, honrado, que não se deixou vencer pelo mal, mas a ele resistiu em amor!
A jornada, a aventura, a história continua! Até aqui, ela foi escrita exemplarmente! Se, porventura, o mal parecer vencer, vençam o mal com o bem! Lembrem-se das Escrituras; lembrem-se do seu testemunho como Igreja, nesses 44 anos de História; lembrem-se dos 93 anos, desses, mais de 60 anos dedicados ao Ministério da Palavra e dos Sacramentos do seu Pastor; e continuem a lutar: incluindo não excluindo; amando não odiando; reconhecendo que neste corpo não há adulto ou criança, homem ou mulher, negro ou branco, heterossexual ou homossexual, pobre ou rico, judeu ou grego, mas que todos, todos, são um só corpo em Cristo Jesus! Pelo amor, até aqui vencemos! Pelo amor, continuaremos a vencer! Pelo amor, construímos no aqui e no agora para o amanhã, a civilização do amor!
Parabéns Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo! Parabéns Reverendo Domício Pereira de Mattos! Deus nos abençoe a peregrinação!
Amém!
Reverendo Márcio Retamero – Comunidade Betel do Rio de Janeiro, no 4º Domingo após a Epifania, 2009 anos após a revelação de Cristo.
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