sábado, 28 de fevereiro de 2009

7º Domingo após a Epifania - 22/02/2009


DOMINGO DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR JESUS


O DEUS DE AMOR QUE RESPLANDECE: A ELE OUVI!

Leituras Bíblicas: 2 Rs 2.1-12 - 2 Co 4.3-6 - Mc 9.2-9

Celebramos hoje o 7º Domingo após a Epifania ou o Domingo da Transfiguração do Senhor Jesus. É o término da primeira metade do Tempo Comum, cuja segunda metade começa após o Pentecostes, e, por isso, chamamos esta segunda metade de “Após Pentecostes”. Iniciamos este primeiro período no dia 11 de janeiro último, refletindo sobre o Batismo de Jesus Cristo por João, o Batista. Foi a primeira Epifania. Nela, vimos o Senhor saindo das águas e uma manifestação divina: a nuvem, a voz, a pomba. Ali, o Senhor Jesus ouviu: “Tu és o meu Filho Amado, em ti me comprazo” (Mc 1.11). Hoje, fechando o Tempo Após a Epifania, temos uma outra revelação, uma outra manifestação que completa e esclarece a primeira: a Transfiguração (metamorfose, em grego) do Senhor Jesus, no Monte, tendo como testemunhas três de seus discípulos: Pedro, Tiago e João.

O texto do Evangelho de hoje é um dos mais difíceis de interpretação contidos na Escritura. A cena, carregada de simbologia, não pode ser interpretada sem alguns paralelismos com o Antigo Testamento e com o próprio Evangelho para esclarecê-lo. O contexto também, como sempre é muito importante para a tentativa de entendimento.

S. Marcos, como já aprendemos, é o mais antigo dos Evangelhos. É através dele que S. Mateus e S. Lucas escreveram suas obras, acrescentando, claro, materiais próprios de outras fontes. Os relatos paralelos que também nos ajudam a entender a cena da Transfiguração estão em Mt 17.1-8 e Lc 9.28-36.

Inicia S. Marcos assim: “Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte.” (Mc 9.2 a). Seis dias depois de que? O que aconteceu antes e que esclarece a cena da Transfiguração? A resposta encontra-se nos versículos 27 a 30 do capítulo 8: Jesus estava com os seus discípulos em Cesaréia de Filipe, quando perguntou a eles: Quem dizem os homens que sou eu? A resposta: João Batista; outros: Elias; mas outros: algum dos Profetas. Uma outra pergunta, agora mais direta: Mas vós, quem dizeis que eu sou? É Pedro, quem responde firme: Tu és o Cristo! (Mc 8.29). Cristo: você já parou pra pensar no significado do nome? Sabemos que o nome próprio do Senhor é Jesus. Cristo é o título que diz quem Ele é: o Ungido de Deus, o Messias esperado por Israel, profetizado ao longo da História. Isso só poderia ser revelado, ou seja, “a carne e o sangue” não poderiam discernir no Jesus histórico, o Cristo, o Ungido. Ele mostrou, se revelou aos seus como Cristo, nas palavras que falava e nas obras que realizava a vista deles. Pedro, ali, recebeu uma revelação especial: aquele que seguiam, não era somente um grande Profeta ou um taumaturgo, mas era o Cristo, o Esperado, o Emanuel, o Messias de Israel.

Neste contexto, Jesus revelou algo que surpreendeu e revoltou seus discípulos, principalmente Pedro, que foi o porta-voz da revelação. O que disse Jesus? “Então, começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse” (Mc 8.31). “Como”? Deve ter pensado Pedro! Então que Messias é este? Os judeus aguardavam um Messias que restauraria Israel, que declararia não apenas a independência da nação como a glorificaria diante das outras nações e povos. Neste pensamento, Jerusalém seria a capital do mundo, o Monte Sião, o local para onde correriam todas as gentes para louvar e bendizer Iahewh, o Deus de Israel. O Messias teria um importante papel político a representar e de acordo com o pensamento messiânico, não cabe sofrimento e morte, porque a morte do Messias seria o fim e o sofrimento o faria um igual aos outros, subjugados, não o libertador da nação!

Por isso, Pedro, repreende Jesus, e, Jesus, repreende Pedro duramente: “Arreda, Satanás! Porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mc 8.33). Sempre fiquei boquiaberto com esta passagem, onde Jesus chama Pedro de Satanás. Somente depois, estudando com afinco as Escrituras, entendi! Temos que recorrer ao episódio da Tentação no deserto, narrada por S. Lucas para entendermos melhor isso: “E, elevando-o, mostrou-lhe, num momento, todos os reinos do mundo. Disse-lhe o Diabo/Satanás: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua. Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele darás culto” (Lc 4. 5-8). Ou seja, meus irmãos, Pedro, que pensava ser o Cristo um Messias político, e, assim, cogitava das coisas dos homens e não de Deus, conforme disse Jesus, agiu conforme agira o Diabo na tentação, que ofereceu a Jesus uma autoridade, uma glória, um poder político que fora rejeitado por Jesus, pois este era sim o Cristo, o Messias, contudo, Seu Reino não era deste mundo, não conhecia limite geográfico, tampouco etnias. Ele é não somente Rei de um mundo tangível mas Rei do Universo, conforme celebramos no domingo que encerra o Tempo Comum, após Pentecostes. Jesus, Rei do Universo! Messias do Cosmos, não apenas de uma terra e de um povo! Mas, para isso, era necessário o padecimento, a dor, o sofrimento e a morte.

Por isso, disse Jesus claramente aos seus que “se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho/boa nova salvá-la-á” (Mc 8.34-35). Certamente, seus discípulos não compreenderam totalmente o que Jesus estava declarando com todas essas palavras e isso sabemos pelos Evangelhos. Era difícil para eles. Passaram a vida ouvindo os apocalípticos falando sobre a vinda do Reino, sobre o Messias Prometido. Leram e escutaram os Profetas e foram formados nesse caldo cultural messiânico, sempre esperando para o porvir a final libertação, porque enquanto esperavam, sobre eles estavam as botas opressoras das nações que se revezavam neste subjugo econômico, político, militar. Não entendiam a dimensão espiritual, somente a terrena, ufanista, utópica sobre o Messias. Jesus sabia que eles não entenderam, e, por isso, seis dias após esta conversa e essas declarações, chamou três deles, a sós, à parte e subiram a um alto monte.


Perderíamos todo o significado e compreensão sobre este lindo episódio, se não atentássemos, prestássemos muita atenção, sobre o local onde aconteceu a Metamorfose, a Transfiguração de Jesus. Vocês já pararam para pensar na importância do acidente geográfico chamado “monte”, nas Escrituras? Vejamos: em muitas religiões os montes eram o local de culto. Por ser alto, portanto, mais próximo do céu, pensavam os homens que era no monte o local certo para a adoração das divindades. Os israelitas não são exceção neste importante dado sobre as antigas religiões. É importante dizer isso, porque os fundamentalistas esquecem que Israel não era uma ilha no mar da humanidade. Os fundamentalistas gostam de evocar uma suposta “pureza” na religião de Israel. Não! A religião de Israel estava completamente inserida dentro da História! Recebia influências e influenciou outras religiões. Lendo os profetas do Antigo Testamento, percebemos sem a menor dúvida, que o povo de Israel absorveu e muito das religiões ditas pagãs, dos povos vizinhos. Sacrificavam, como esses, no monte, à divindade Baal. Oséias, Isaías, Amós, todos eles apontam este desvio de Israel. Os deuses gregos e romanos também habitavam o monte: Olimpo e Capitólio. Também Yahweh escolheu um Monte para manifestar sua divindade: o Horebe (o nome significa “seco”) (Ex 17.6) ou Sinai (o significado vem do deus Sin, o senhor da sabedoria, representante da lua) (Ex 19.11). Foi a tradição sacerdotal que mudou o nome do Monte para evitar a ligação politeísta que o nome deste fazia alusão.

É no Monte Horebe que Moisés recebeu as tábuas da Aliança de Deus com o Povo de Israel. A partir deste episódio, a aliança que fora feita com um só homem, Abraão, é estendida à sua descendência, a todo o povo. É no mesmo Monte Horebe que Elias se encontra com Deus enquanto se escondia numa caverna, pois fugia da fúria de Jezabel (1 Rs 19.12). Assim, como o deserto, a montanha, para o povo e a religião de Israel, é lugar de encontro com Deus, de revelação de Deus, de Epifania. Assim como Moisés e Elias subiram ao Monte Horebe e ali receberam revelação de Deus e tiveram encontro com Deus (as Escrituras relatam que Moisés conversava com Deus: Ex 33.9; 34.29; Nm 12.8); Jesus chama Pedro, Tiago e João para subirem ao Monte e diz S. Lucas, acrescentando: “para orar”, ou seja, para falar, conversar com Deus. Ali, no Monte, serão testemunhas de uma Epifania, a Transfiguração do Senhor Jesus.

A Tradição identifica como o Monte da Transfiguração, o Monte Tabor, os evangelistas nada dizem a respeito do “nome” do monte, nem a sua localização geográfica, tal como fazem quando aludem ao Monte das Oliveiras. O Monte Tabor tem um formato de um cone, domina, sozinho, a planície de Esdrelon, os árabes chamam este monte de Jebel et Tur (monte dos montes). Neste monte, a história registra, houve em tempos passados cultos à Baal, o que a arqueologia prova, pois escavações revelaram ali um templo dórico. O Monte Tabor aparece nas Escrituras no capítulo 19 do livro de Josué, era o ponto de convergência de três tribos de Israel: Zabulon, Neftali e Issacar. O culto a Iahewh no monte Tabor remonta ao tempo dos juízes de Israel (Jz 4.6). O Redator do Deuteronômio menciona o Tabor nas bênçãos finais de Moisés: “A Zabulon ele diz: Sê feliz em tuas expedições, Zabulon, e tu, Issacar, em tuas tendas! *Sobre a montanha* em que os povos invocam, ali oferecem sacrifícios de justiça...” (Dt 33.18-19). A única montanha comum entre Issacar e Zabulon, era o Tabor. Foi neste monte que os midianitas mataram os irmãos de Gedeão (Jz 8.18-19). Oséias e Jeremias citam o Tabor e, por fim, o Salmo 89: “O Norte e o Sul, tu os criaste; o Tabor e o Hermom exultam teu nome” (Sl 89. 12). Portanto, o Tabor tem muita importância na história do povo de Israel. Ainda que os evangelistas não o mencionem como o local exato da Transfiguração, a Tradição assim atribui. Seja no Tabor ou em qualquer outro monte, o importante para nós não é a materialidade do local geográfico, mas o significado da Transfiguração num Monte: Jesus ao escolher este local alto, evoca a história de Seu povo e duas grandes personagens que tiveram experiências com Deus no monte: Moisés e Elias.

“Foi transfigurado diante deles; as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar” (Mc 9.2b-3). A palavra grega empregada por S. Marcos é metamorfose (transformação do sujeito de maneira permanente), diferente, portanto, de “metaschêmatizo”, que é mudar temporariamente de aparência. S. Mateus emprega a mesma palavra que S. Marcos, contudo, não a emprega S. Lucas: “Enquanto orava, o aspecto de seu rosto se alterou” (Lc 9.29). Por que S. Lucas emprega outro verbo? Eu acho lindo isso! Porque ele escrevia seu Evangelho para gentios, de origem pagã, e evita o empregar uma narrativa fantástica para que não haja, entre seus leitores, confusão com suas religiões pagãs e o emprego nessas, da palavra metamorfose. Cada evangelista escreve para um público-alvo. Nas diferenças de pormenores entre eles em relação ao episódio da Transfiguração, percebemos nitidamente, que isso é verdadeiro. Por isso, diferente da sobriedade de S. Marcos, S. Mateus, que escreve para um público alvo de judeus cristãos ou para a catequese de judeus, assim descreve a cena, com ares apocalípticos: “E ali foi transfigurado diante deles. Seu rosto resplandeceu como o sol e as suas vestes tornaram-se alvas como a luz” (Mt 17.2). De tudo isto, vale dizer que o corpo de Jesus resplandeceu, foi transformado em corpo de luz (doxa, em grego). Essa mesma doxa, a mesma glória, a mesma luz, os israelitas viram no rosto de Moisés quando este desceu do Monte Sinai (Ex 34.29-30). Essa glória que Jesus agora mostrava era a glória da Sua Ressurreição. Eles, Pedro, Tiago e João, as únicas testemunhas históricas ali presentes, não entenderam quando o Senhor, seis dias atrás, dizia que deveria padecer, sofrer, morrer e ressuscitar. Por isso, Ele agora se revela, em Sua Doxa, em Sua Glória, como o Filho do Homem, não um Messias Político. Ainda que isto tivesse acontecido, ainda que tivessem presenciado essa glória, ainda não entenderam a ressurreição, por isso, Jesus, quando desce com eles do monte, pede que não façam menção do ocorrido a ninguém enquanto Ele não ressuscitasse, ou seja, poderiam falar retrospectivamente do episódio, no futuro, porque então, eles já entendiam plenamente do que Ele falava; até agora, “Eles observaram a recomendação perguntando-se que significaria “ressuscitar dos mortos” (Mc 9. 10).

“E lhes apareceram Elias com Moisés, conversando com Jesus” (Mc 9.4). S. Lucas assim descreve: “E eis que dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias que, aparecendo envoltos em glória [doxa], falavam de seu êxodo [partida] que se consumaria em Jerusalém” (Lc 9.30-31). Alinha-se aqui, precisamente, o que eu antes mencionava: a epifania do Sinai com Moisés (Ex 19.9,16-20; 24.15-18; Dt. 5.22-27), a epifania do Horebe com Elias (1Rs 19.8-19) a epifania do Senhor Jesus no Monte. A simbologia da cena é forte e linda: Moisés representando a Lei, a Aliança de Deus com o povo de Israel; Elias representando os Profetas, que pessoalmente foi o que combateu a idolatria, enfrentou Jezabel e os profetas pagãos, restaurando assim, em Israel o culto a Iahweh e Jesus, o Prometido, o Verbo que se fez carne e que entre nós habitou, o Deus de Moisés e de Elias, por isso, superior a eles, Senhor deles, que se mostra em toda a sua glória. Voltou a acontecer o encontro, a epifania, no monte, entre a Lei, os Profetas e Iahweh.

Diante das Escrituras representadas na cena por Moisés (a Lei) e Elias (Os Profetas), Jesus cumpre seu chamado, suplanta a Lei, afirma as profecias acerca Dele: eis chegado Tempo da Salvação! Nele, encerra-se tudo! Não esqueçamos as testemunhas que presenciaram a cena! Israelitas, viram a glória do Senhor como manifestada no monte aos dois personagens que completam a cena: fica claro a revelação e confirma-se a declaração de Pedro, seis dias atrás: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo! Ele é o Messias! Fecha-se aqui o quadro iniciado em Cesaréia de Filipe, diante das Escrituras (Moisés e Elias) afirma-se que Jesus é o Cristo.

“Então Pedro, tomando a palavra, diz a Jesus: Rabi, é bom estarmos aqui. Façamos, pois, três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. Pois não sabia o que dizer, porque estavam atemorizados. E uma nuvem desceu, cobrindo-os com sua sombra.” (Mc 9.5-7 a). Nuvem e tenda remetem ao acampamento no deserto (êxodo), à tenda do encontro e à nuvem do caminho. Era no tabernáculo, na tenda, que a Shekinah, a doxa, a glória do Senhor manifestava-se quando o povo de Deus caminhava no deserto em busca da Terra Prometida. Pedro quer prolongar a cena, por isso, sem noção (S. Lucas escreve: “sem saber o que dizia” – Lc 9.33), faz a proposta da construção dos três tabernáculos, porque quer ficar ali, onde a glória do Senhor estava. Pedro realmente não entendeu, estava cheio de pavor diante do que via seus olhos, mais tarde, sobre este episódio, ele dirá: “Com efeito, não foi seguindo fábulas sutis, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade, que vos demos a conhecer o poder e a Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois ele recebeu do Pai honra e glória, quando uma voz vinda da sua glória lhe disse: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Esta voz, nós a ouvimos quando lhe foi dirigida do céu, ao estarmos com ele no monte santo” (2 Pe 1.16-18).

O ápice desta cena, o ponto máximo, o maior ensinamento, é este: “E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado; OUVI-O.” (Mc 9. 7). Fecha-se aqui o quadro do Batismo de Jesus. Naquela ocasião, só Jesus ouviu a voz. Nesta ocasião, as testemunhas também escutam, mas com um importante complemento: ouvi-o! Completa-se também o que se passou em Cesaréia de Filipe seis dias atrás: lá escutaram a confissão apostólica de Pedro: Tu és o Cristo. Aqui, ouve-se a confissão do próprio Deus: Este é o meu filho amado, ouvi-o! Jesus é a Revelação Definitiva de Deus. O Messias. A Confissão Apostólica, que nós herdamos e por isso proclamamos a Jesus como Senhor e Salvador, também é Revelação, pois foi comunicada da glória de Deus, pela nuvem, no alto do monte, onde Jesus foi transfigurado. Jesus é maior que Moisés, maior que Elias, maior que as Escrituras (essas testificam Dele, mas não são Ele). Jesus é a Shekinah, a glória de Deus entre nós, seres humanos, é o “Deus Conosco”!

Por isso, o mais importante, é ouvi-lo! Não por acaso, S. Marcos, após esta cena, vai narrar nos capítulos seguintes, a formação que Jesus dá aos seus discípulos (Mc 9.30-31), vai ensinar-lhes a ética de seu Reino (Mc 9.35-10.45). O importante é ouvi-lo! Porque se não o ouvirmos, se tão somente seguirmos nossos achismos, ou tão somente fabricarmos para nós um ídolo (como a Bíblia, por exemplo, ídolo máximo dos fundamentalistas); se não o ouvirmos e ficarmos apenas nas nossas mesquinhas projeções criando um “deusinho” com cara de gente; se não o ouvirmos e então andarmos atrás de nossas falácias; se não o ouvirmos, enfim, não cumpriremos o seu mandamento maior, a Sua Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos! E é por isso, que hoje, embora muitos digam que O seguem, mas em seus atos demonstram exatamente o contrário, porque não O escutam! Querem o Jesus da religião, o Jesus da Tradição, o Jesus do fundamentalismo, e tantos os outros “jesuses” que conseguirem para si fabricarem! Ah, se escutassem a Voz: ouvi-o! Ah, se escutassem!

Escrevo este texto dias após da premiação do Oscar 2009, o prêmio mais importante do Cinema. Soube, pelas agências de jornalismo, que na porta do Teatro onde é realizado a cerimônia de entrega dos prêmios, um bando de gente que pensa seguir Jesus, que se auto-denominam cristãos, seguravam cartazes com os seguintes dizeres: “Heath in Hell”, “God hates Gays”... lá dentro do teatro, Heath Ledger, o ator que interpretou maravilhosamente bem um caubói gay em "O Segredo de Brokeback Mountain" estava sendo homenageado, sendo o primeiro ator da história do cinema a ganhar um Oscar Póstumo. Também Sean Penn, intérprete de Harvey Milk em “Milk - A Voz da Igualdade", estava ganhando o Oscar de Melhor Ator. Ambos atores, deram carne a personagens homossexuais, um fictício e um outro real (Milk). A fúria dos “cristãos” à porta do Teatro, dando péssimo testemunho de Cristo, gritando, trazendo cartazes pérfidos, com frases pérfidas, é a demonstração mais ululante, que de cristãos eles nada têm, pois não ouvem Jesus. Não o Jesus dos Evangelhos. Seguem um fantasma fabricado por eles mesmos; um ídolo. Eles não ouvem Jesus. Não obedecem a voz da Transfiguração, e, por isso, não cumprem o mandamento do amor, que impede alguém de decretar, de julgar, de se assentar no trono de Deus, roubando-lhe a glória, para decretar onde um ser humano hoje se encontra, depois da morte!

Não seja assim conosco, irmãos e irmãs da Comunidade Betel do Rio de Janeiro! Não seja assim conosco, membros da igreja inclusiva! Não seja assim conosco, cristãos e cristãs cujos nomes não sei, mas que lêem este texto! Se quisermos realmente a dignidade do nome de cristãos, sejamos verdadeiramente seguidores do Cristo que foi revelado a Pedro em Cesaréia de Filipe; que foi transfigurado no Tabor diante de três de seus discípulos: o Cristo que não negou a sua glória, mas também não a usurpou, antes, humilhou-se até a morte, e morte de Cruz. O Cristo cuja verdadeira doxa, verdadeira glória, foi no alto, mas não no alto do poder de um Messias político, mas no alto de uma Cruz, atraindo assim, para Si, todos e todas nós! Podemos dizer, com João, que vimos a Sua Doxa, como a Doxa do Filho Unigênito do Pai e, atraídos por Ele, tombamos a seus pés, para termos vida em seu nome! Quem tem vida em nome de Jesus, não anda por ai portando cartazes condenando pessoas ao inferno! Quem tem vida em nome de Jesus não põe obstáculos à felicidade alheia, negando direitos sociais, ainda que não concordem com seu estilo de vida. Quem tem vida em nome de Jesus, não deixa subir ao coração algo nocivo, venenoso, diabólico como a homofobia. Quem tem vida em nome de Jesus, não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a justiça e com a verdade, lutando por ela. Quem tem vida em nome de Jesus, luta em favor do pobre, do oprimido, contra os poderes deste mundo que oprimem. Quem tem vida em nome de Jesus, só sabe amar: a Deus em primeiro lugar, e, ao próximo, como a si mesmo!

“Ouvi-o”! Esta é a lição maior da Transfiguração. Como segui-lo se não o escutamos? Como nos identificamos como seus seguidores, se não sabemos o que Ele disse e ordenou fazer? Como bater no peito e dizer: “Sou cristão!”, se não cumpre o maior de todos os mandamentos?

Quem tem ouvidos, ouça, o que hoje o Espírito Santo diz à sua Igreja!

Rev. Márcio Retamero

www.betelrj.com

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