
“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6), assim nos ensina o escritor da Carta aos Hebreus. Ora, o que é fé? O mesmo autor responde: “A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1). O Deus de Amor em Cristo nos chama à fé, esta, não vem de nós, é dom de Deus, portanto, é graça!
Algumas pessoas já me disseram que simplesmente não sabem o que é ter fé, que não têm fé e que por mais que a busquem, não a encontram! Talvez não a encontram porque, como diz o Autor Sagrado, a fé é um presente, sendo assim, impossível de ser obtida por esforço próprio.Alguns antropólogos dizem que o ser humano é homo religious, ou seja, em toda parte e em toda cultura, os pesquisadores encontraram algum sistema de crença no Sagrado, alguns sistemas são muito elaborados, outros, rudimentares, mas é algo em comum que os seres humanos têm: a religião. A etimologia primeira da palavra fé é confiança. Confiar é também ter esperança, palavra tão cara às Escrituras.
Abraão é chamado o Pai da Fé porque teve confiança na palavra que Deus havia enviado para ele através de mensageiros: embora idoso, sua esposa, também idosa, teria um filho dele. Sobre este filho, havia uma promessa: dele, descenderiam nações. Sara, a esposa de Abraão, ao ouvir a mensagem e a promessa, riu! Não porque era debochada! Riu pela humana impossibilidade da promessa. Era idosa, seu esposo era idoso; como ter um filho à esta altura?! Por conta do riso, seu filho chamou-se Isaque, literalmente, “Riso”.
O Apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, citou o caso relatado no Gênesis e escreveu: “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações...” (Rm 4.18). Aprendemos com o Pai da Fé que fé é, portanto, algo além de confiar, é confiar não olhando as circunstâncias, é “esperar contra a esperança”, porque esperança, era algo que humanamente falando, nem ele nem Sara poderiam ter, visto a idade avançada de ambos.
Esperar contra a esperança! Eu acredito que este é um bom conceito de fé! Não é o caso aqui de ter fé irracional, aliás, estes conceitos de racional e irracional, não cabe à fé, embora os séculos de histórias que relatam a busca do ser humano por casar fé e razão.Fé é paradoxo. Paradoxo é opinião contrária ao sentir comum; contradição ou contra-senso, pelo menos aparente. A Fé nos chama a ir além dos conceitos racional e irracional. Isso não significa colocar a fé no campo da irracionalidade. A fé gera uma atitude diante do impossível exatamente pela dimensão paradoxal que está em seu cerne.
A fé não é cega, ao contrário, ela enxerga além; vai onde a racionalidade não alcança, porém, não usa da irracionalidade para isso. A fé em algo pode ser até mesmo revolucionária, a história dá provas disso.
Lembro de um filme dos anos 90: “Fé demais não cheira bem”. Neste filme, o ator principal faz o papel de um charlatão que usa e abusa da boa fé alheia, usando a Bíblia para isso, algo muito comum em nossa sociedade. É fato que isso ocorre e cada mais tem ocorrido nos dias de hoje, não é preciso ir muito longe para provarmos que isto existe. Mas também é fato que pessoas movidas pela fé conseguem superar barreiras humanamente fadadas ao fracasso. Não somos chamados a uma fé irracional, mas a uma fé paradoxal. Aquela que não é estúpida o bastante para ser enganada, tampouco a fé racionalizada que não consegue enxergar além; não consegue esperar contra a esperança.
Neste fio de navalha, nesta corda bamba da fé, somos chamados ao equilíbrio. Todo extremismo vai de encontro à essência da fé, que é radical, ou seja, tem raiz firmada. Uma fé desequilibrada nos leva ao engano, o que definitivamente não é o que Deus pretende em relação a nós.
Costumamos chamar o nosso Deus de “Deus dos Impossíveis” e de fato Ele é! Não o é porque sua especialidade é abrir mar, fazer da estéril mãe de filhos e de um útero amortecido tirar linhagem. Não. Isso Ele fez mas é pouco pra Ele! É Deus dos Impossíveis porque dá razão, rumo, norte a algo que racionalmente falando, não tem sentido, a própria vida! Este é o grande milagre do Deus dos Impossíveis: dar sentido às nossas vidas.
Por isso o convite de Jesus: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á” (Mc 8.35). Vida vivida sob um ideal. Abandonar-se (que também é uma atitude gerada pela fé) ao cuidado de Deus: perder, ou seja, não ser o dono, o gerenciador (da vida), abandonando-se ao Sustentador da Vida, o Senhor nosso Deus. “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). Por isso, o chamado, o convite ao abandonar-se, porque a vida é muito mais que “ganhar o mundo”, afinal, existe algo inexorável que também é a outra face da existência, a morte. Uma vida vivida no objetivo de ganhar o mundo inteiro tão somente, perde a razão da existência que é o chamado para a continuidade da vida. Uma vida vivida no objetivo tão somente de ganhar o mundo inteiro, gera no ser uma grande frustração que adoece a alma quando ela percebe que não pode gerenciar tragédias que ocorrem na vida.
A força da fé está justamente em nos dar chão para momentos que, humanamente falando, é impossível tecer explicações que sossegam a alma na hora do mau. Quem não vive nesta existência dias maus? Quem jamais sepultou alguém que era alvo do nosso amor? Quem jamais não adoeceu? Quantos não experimentaram um acidente que lhe tirou os movimentos do corpo, mudando em segundos, radicalmente a vida? E quem, dentre os filhos dos homens, dá conta de explicar as dores e os dissabores?
A fé nos faz viver além, meus irmãos e irmãs! Nos chama a pisarmos terreno sólido, não movediço, do sentido à existência. Certamente é paradoxal! Contudo, possível! O meu desejo e a minha oração é que a proclamação da Palavra nesta Comunidade gere fé em nós! Meu desejo e minha oração é que experimentemos uma vida de fé, ainda que esperando contra a esperança e, assim, fortalecidos para existirmos! Quem não tem fé, peça-a ao Senhor, que a todos concede gratuitamente! E seja assim, irmãos e irmãs, até Jesus voltar! Amém!
Rev. Márcio Retamero
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