terça-feira, 31 de março de 2009

4º DOMINGO DA QUARESMA - 22/03/2009


O DEUS DE AMOR SE ENTREGOU POR NÓS E NOS DEU VIDA!



Leituras Bíblicas: Nm 21.4-9 - Ef 2.1-10 - Jo 3.14-21



João Calvino escreveu no Livro I das suas Institutas, obra magna dos Reformados, que o autoconhecimento é caminho seguro para nos achegarmos a Deus mediante Cristo. Ele escreveu isso no século XVI e isso não deixou de ser uma verdade em nossos dias. As leituras bíblicas deste 4º Domingo da Quaresma nos atestam ser verdadeira a observação de Calvino: quanto mais nos conhecemos mais temos a certeza da nossa humanidade caída em Adão e da nossa necessidade de Deus.

Em linguagem teológica, chamamos de antítipo a figura representada pelo seu tipo. O Antigo Testamento está repleto de antítipos, e um deles, é a serpente abrasadora que Moisés fez e colocou numa haste para que os israelitas, envenenados pelas serpentes abrasadoras do deserto, quando a mirassem, fossem salvos da morte.

A primeira leitura de hoje, Nm 21.4-9, conta-nos o episódio. Chegados à terra dos cananeus, os israelitas, que vinham peregrinando pelo deserto há quatro décadas após a saída do Egito, o Rei de Arade pelejou contra os filhos de Israel e levou consigo alguns cativos. O povo de Israel fez voto ao Senhor e o Senhor os concedeu vitória sobre os cananeus, os entregando nas mãos de Israel. Após esta vitória, o povo partiu do Monte Hor, rodeando a terra de Edom, pelo caminho do Mar Vermelho. A vitória parece, não surtiu neles efeito algum de alegria e gratidão pelo Senhor, pois em sua peregrinação, tornou-se o povo impaciente e levantando a voz contra Deus e os seus feitos, reclamavam com Moisés: “Por que nos fizestes subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil” (Nm 21.5).

A ingratidão é a pior resposta que damos quando de alguém recebemos favor. Eu não sei se você já foi vítima ou autor de ingratidão, mas saiba, que não há algo mais vil e venenoso do que ser alguém ingrato. Ingratidão é o contrário de gratidão. Ao receber graça de Deus, o povo respondeu com ingratidão: eles recebiam a proteção do Senhor enquanto peregrinavam (coluna de fogo e nuvem) e recebiam também água e maná, uma espécie de pão, mas não estavam satisfeitos nem com o ato primeiro da graça de Deus que foi a libertação de sua escravidão no Egito. Assim, cheios de ingratidão, falavam contra os feitos de Deus a favor deles e contra Moisés, seu líder.

Diz o velho ditado que quem semeia vento colhe tempestade! Mas ainda que saibamos ser isso uma verdade verificável, nossa natureza é tão caída, que continuamos a semear os ventos que destelharão as nossas casas. A resposta de Deus pela ingratidão do povo foi o envio de serpentes abrasadoras que atacaram o povo e muitos morreram envenenados. Cientes de que aquilo era a colheita das sementes que eles estavam semeando, o povo voltou atrás e reconheceu que estavam sendo ingratos com Deus, falando o que não deviam falar contra Ele e contra Moisés, o servo do Senhor. Rogaram ao seu líder que rogasse ao Senhor a favor deles, o que Moisés prontamente fez, pedindo misericórdia pela insolência do povo. O Senhor então, que é cheio de misericórdia e que não recusa corações contritos, deu ordens à Moisés que fizesse uma serpente de bronze, que a colocasse numa haste afim de ficar levantada, no alto, e quando alguém fosse picado pelas serpentes, ao olhar para aquela serpente de bronze, ficassem salvos da morte por envenenamento.

S. João usa em seu Evangelho essa passagem, para falar do amor de Deus em Cristo Jesus – o Filho Unigênito – que foi levantado no madeiro da cruz por amor de todo o ser humano. João fez, portanto, da serpente abrasadora de bronze, o antítipo de Jesus. O povo era curado pela Graça do Senhor que manifestava os curando do veneno assim como somos salvos da morte quando miramos o madeiro da Cruz onde o Senhor foi levantado. Quem olha para a cruz recebe salvação. Salvação da morte, fruto do envenenamento não mais de serpente alguma, mas de um veneno tão mortífero quanto: o veneno de uma existência sem Deus, sem amor.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça (ou seja, não morra), mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Talvez seja essa a passagem mais famosa, mais conhecida dos Evangelhos. Ela resume o que Deus fez por nós em Cristo, nos salvando da morte. Existir sem amor (e Deus é amor) é não existir. E quem não existe de fato não vive, ainda que ande, fale, coma, durma, case e faça o que outro ser vivo é capaz de fazer, pois viver sem amor é “meio viver” e, como disse o Poeta Drumond, “meio viver é morrer”.

Vida e vida em abundância! Foi o que Deus realizou em Cristo Jesus a nosso favor! Somos chamados a viver e a viver intensamente quando miramos a cruz e nela enxergamos a vida que dela brota. Da árvore da vergonha, do madeiro da ignomínia, o Senhor fez Trono de vitória. Da vida que ali se esvaía, brotava vida em abundância! Não tem outro resultado quando olhamos para a cruz a não ser este!

Até enxergarmos a cruz e dela recebermos vida, “meio vivíamos”, portanto, como diz Paulo aos Efésios, na verdade estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Mas ainda que mortos e quando mortos, Ele, em sua misericórdia e amor, nos deu vida! Isso não foi uma resposta pelos nossos esforços, nada fizemos para recebermos vida (mortos não obram!), mas pela Graça e de graça fomos salvos de uma vez por todas da morte quando no Gólgota Ele foi pendurado no madeiro.

Muitos são hoje os que se assemelham aos israelitas do Velho Testamento. Nos desertos de suas vidas, não se dando conta que já receberam vida ao invés de morte por Cristo, continuam a falar contra Deus: “porque nasci?”; “porque me trouxeste à vida?”; “porque eu peregrino nesta terra de sofrimentos e expiações?”; “porque não me mata logo?”; “porque não termina logo com isso?” – pensam esses! Agindo assim, não param para enxergar a graça comum que recebem todos os dias das mãos do Pai em meio ao deserto da vida: saúde, inteligência, família, pão, água, um belo cenário (como Calvino chama a natureza), amigos, trabalho, forças, enfim, o sol e a chuva que se levanta e cai sobre justos e injustos.

Muitos não conseguem enxergar no deserto da vida deles, lugar de morte, a vida que Deus lhes dá gratuitamente e preferem seguir assim, envenenados pelas serpentes abrasadoras das circunstâncias das lutas da vida. Estão mortos e não sabem! Que desgraça! Que tristeza “meio viver”! Que coisa tola é ver a existência desta perspectiva desértica! Que coisa horrenda é “meio viver” andando em caminhos de deserto, obrando, realizando absolutamente nada, ou realizando coisas que se envergonha! Coisa triste é passar a existência em lamentos e ais, reclamando de Deus, reclamando da vida, reclamando da família, reclamando do trabalho, reclamando dos amigos, reclamando de tudo e de todos! Isso é vida?! Podemos chamar isso de viver?!

Não, não e não! Definitivamente não! Deus nos chama para a vida, meus irmãos e irmãs! E vida é também chorar além de sorrir; sentir ao invés de fingir; lutar, lutar e lutar ao invés de se lamentar e se entregar! Vida é passar pela existência intensamente, fazendo dos ais da vida degraus de crescimento como gente. Passar a existência sem a visão que Deus nos dá pela cruz, de vida e vida em abundância, é desperdiçar fôlego! É pecar contra o Senhor que nos concedeu vida!

Você que está sendo picado pelas serpentes abrasadoras da sua peregrinação no deserto, não morra envenenado! Existe uma cruz levantada, de onde brota vida, para você olhar e viver! Não morra do envenenamento das serpentes da vida! Olhe para Jesus e enxergue a vida que Ele te deu quando a sua vida entregou! Você não precisa viver uma “meia vida”, “meio morto”! Não! Você pode passar por tudo o que está destinado à existência tirando dela mais fôlego, mais ânimo, mais força, mais vida! Basta olhar para a cruz!

Olha, não nascemos para as obras de morte que produzimos em vida, como escreveu Paulo, “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. Em nome de Jesus, olhe para a cruz e viva em abundância! Amém!

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