segunda-feira, 6 de abril de 2009

5º DOMINGO DA QUARESMA - 29/03/2009


O DEUS DE AMOR FEZ UMA ALIANÇA CONOSCO



Leituras Bíblicas: Jr 31.31-34 - Hb 5.5-10 - Jo 12.20-33

As Escrituras narram a história da salvação. Essa história, segundo os padrões cristãos, é dividida em duas partes: a antiga aliança e a nova aliança. A antiga aliança é restrita, diz respeito ao povo de Israel, descendentes dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Podemos dizer que a antiga aliança era uma aliança étnica, uma aliança entre Deus e o povo hebreu. Esta aliança não está baseada na obra de nenhum homem, mas na fé de um homem, Abraão; e porque creu Abraão, tornou-se o pai da fé de todos quantos em qualquer tempo e lugar crêem no nome do Senhor. A nova aliança é a extensão da primeira aliança. Na nova aliança, permanece o dado da fé como dom de Deus e sinal do pacto. A nova aliança que Deus fez com os seres humanos não mais está firmada a partir da etnia, mas a partir da fé somente. Seu autor e consumador é o Deus Filho, Cristo Jesus, que selou esta nova aliança com o seu sangue. Ambas as alianças tiveram no Senhor nosso Deus a iniciativa e ambas aconteceram por pura Graça Dele. Outrora, Ele elegeu os filhos de Abraão. Agora, Ele elege seres humanos de todos os povos, línguas e nações da terra. As leituras bíblicas de hoje nos fazem refletir sobre a aliança que Deus fez com os seres humanos na História.

O Profeta Jeremias é o autor da nossa primeira leitura. Ele viveu num período muito triste da História do povo de Israel, o povo da primeira aliança que com o advento da Lei Mosaica, acabou esquecendo que antes de obrar, seu pai Abraão creu na promessa e a partir disso agiu. A falência da Lei Mosaica demonstrava o que muito tempo depois escreveu Paulo acerca do seu entendimento do relacionamento dos israelitas com a Lei e que está registrado na Carta aos Romanos, capítulo 7. Jeremias como profeta do Senhor atestava com as palavras do próprio Deus a completa incapacidade do povo de Deus de agir conforme a Lei. O resultado da sistemática quebra da Lei foi a invasão de Israel pela Babilônia e o exílio daqueles que compunham a “nata” daquela sociedade. Jerusalém foi arrasada! Diante da visão horrenda de assolação, o Profeta movido pelo Espírito de Deus anunciou que Ele queria começar tudo novamente, mas que desta feita, a Lei não estaria gravada em pedras, mas nos corações dos seres humanos, ou seja, uma lei que se humaniza e não se petrifica; que parte da existência e da experiência desta e não que seja rígida a ponto de se tornar pedra de tropeço.

Este texto é um alerta sonoro em altíssimo grau para nos fazer entender de uma vez por todas que a literalidade fundamentalista está em rota de colisão com o próprio Deus. Jeremias em seu tempo não possuía este que é o ídolo maior dos fundamentalistas de hoje, a Bíblia. Possuía os escritos resgatados pelo Rei Josias que acabaram incorporados ao que hoje são as Escrituras Sagradas através de um processo da seleção, compilação e adição de textos (trabalho editorial). Hoje, os fundamentalistas acabaram com a beleza do trabalho que teve como resultado a nossa Bíblia para fazê-la algo como objeto mágico, ídolo. Algo tratado quase como Deus, de um fetichismo absurdo e em assim fazendo, produzem as mesmas mazelas que a Lei produzia: pecado, pecado e pecado. A Palavra de Deus é viva e eficaz, por isso, produz metanoia na vida dos que a acolhem não rigidez mórbida, fundamentalismo tacanho, fé cega e faca amolada! A Palavra de Deus, o Verbo de Deus, é Cristo Jesus, o único capaz de produzir e nos dar vida em abundância e esta palavra não está nas letras de um livro, mas no espírito da letra que o livro traz. Confundem, desta maneira, os que vêem a Bíblia como ídolo e usam do texto sagrado para excluir, julgar, condenar e decretar algo que só a Deus pertence: a salvação de seres humanos.

Nossa segunda leitura, a Carta aos Hebreus, nos dá plena certeza da pessoa e da obra da Única e Vera Palavra de Deus, Cristo Jesus. Ele e nenhum outro é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele e nenhum objeto fetichista, ídolo com pés de barro, é o único e perfeito veículo de salvação, porque quando aqui esteve, foi obediente e obediente até a morte na cruz do calvário, alcançando, desta maneira, livre acesso ao Pai a todos e todas que se achegarem ao Trono do Senhor através do sangue que Ele derramou e não através das palavras escritas em papel.

Não quero com isso que confundam o que estou querendo esclarecer: a Bíblia é documento único, Escritura Sagrada sim, testemunho da história dos seres humanos com Deus, mas não pode ser usada conforme vem sendo usada, como chicote, como açoite, como pedra de tropeço, como ídolo, como objeto fetichista que é confundida com o próprio Deus! A aliança que Deus em amor fez conosco está relatada na Bíblia mas não é a Bíblia em si, antes, é a aliança que o Senhor fez conosco em Cristo Jesus e somente através Dele! Esta é a tão esperada boa nova (evangelho) anunciada pelo Profeta Jeremias: “Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.”

Esta aliança não pertence somente a um povo, não está baseada na etnia, nem nas obras, mas tão somente pela Graça de Deus em Cristo, por isso, conforme nos relata o Evangelho de João que hoje lemos: “Ora, entre os que subiram para adorar durante a festa, havia alguns gregos; este, pois, se dirigiram a Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e lhe rogaram: Senhor, queremos ver Jesus.” (Jo 12.20-21).

As Escrituras chamam esses “gregos”, ou seja, pessoas não pertencentes ao povo judeu, de “adoradores de Deus”. Foi entre esses que o Evangelho pregado por Paulo teve abundantes frutos e constatamos isso no livro dos Atos dos Apóstolos. Os adoradores de Deus freqüentavam a sinagoga, adoravam o Deus que Israel proclamava, mas não observavam a lei judaica. Outros chamados prosélitos são os “gregos” que se submeteram à lei judaica, mas que não nasceram judeus. Os adoradores de Deus subiam à Jerusalém nas festas do calendário litúrgico judaico, como Pentecostes e Páscoa, mas não podiam entrar no mesmo pátio no templo reservado somente aos judeus de fato. Eram “estranhos no portão” do Templo, como o eunuco, servo da rainha Candace, o primeiro fruto cristão após o nascimento da Igreja.

Conta-nos João que esses gregos adoradores de Deus, estavam em Jerusalém para participarem da Festa e pediram aos discípulos de Jesus para verem Jesus. No encontro, Jesus lhes ensinou sobre a vida e anunciou que estava prestes a selar pela sua morte a nova aliança, baseada não no pedigree do sangue mas na Graça e que por isso, eles, os gregos, os estrangeiros, até então excluídos da aliança, seriam inclusos. Eles, ao escutarem Jesus, presenciam o atestado dado por Deus (a voz, como de trovão) que o que Jesus anunciava era a verdade e que Ele era o Filho Unigênito de Deus. Jesus, lhes disse: “Não foi por mim que veio esta voz, e sim por vossa causa” (Jo 12.30). E veio para que não ficasse dúvidas acerca de quem Jesus era e do que Ele realizaria: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Jo 12.32), e, esclarece o evangelista: “Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (Jo 12. 33), ou seja, que sua morte seria a cruz.

Quando Jesus diz “atrairei todos a mim”, inclui o gênero humano e não somente uma pequena parcela da humanidade; não apenas um povo, mas todos e todas. Esta é a aliança que Deus fez conosco em Cristo: uma aliança baseada tão somente no amor, não em obras; uma aliança baseada na obra definitiva de Cristo na cruz, não numa lei gravada em pedra; uma aliança de amor que a todos inclui, não uma aliança que restringe e limita.

Esta aliança nos assegura paz, alegria, gratidão, vida e vida abundante! Esta aliança nos faz de casa, não mais estranhos no portão do Templo. Esta aliança nos faz cidadãos da Jerusalém celestial, não a terrena. Esta aliança nos faz filhos e filhas, independente de nossas obras e tão somente baseada na obra de Cristo: sua morte vicária na cruz do Calvário!

Esta certeza deveria fazer com que a “igreja” de hoje se convertesse dos seus maus caminhos e parasse de ser pedra de tropeço, lei, que limita, restringe e exclui seres humanos da comunhão com Deus. A “igreja” de hoje, que virou tão somente religião exterior, deveria fazer penitência e pedir perdão por uma história tão longa e infame e que ainda se reproduz, de exclusão e marginalização de seres humanos; uma “igreja” que ainda está no velho pacto, na velha aliança, superada de uma vez por todas na Cruz de Cristo; uma “igreja” mais judaica do que verdadeiramente cristã. O Apóstolo Pedro anunciava assim como o Apóstolo Paulo esta nova aliança, esta boa nova, este evangelho, que é único: Deus não faz acepção de pessoas!

E o que vemos hoje? Vemos hoje a “igreja” fazendo acepção de pessoas, usurpando desta maneira, a glória que é somente de Deus. A “igreja” se acha no direito de arrancar joio e com ele o trigo, fazendo exatamente o contrário que Jesus ensinou fazer: deixe que joio e trigo cresçam juntos porque cabe ao Pai separá-los. Mas não! A “igreja” assim que se embriagou do poder, o que mais faz é anunciar anátemas, excomungando, excluindo, desfazendo (humanamente falando) a aliança pela Graça, como se fora ela a crucificada e não o Senhor Jesus!

A Igreja Reformada, que hoje também encontra-se pervertida, deveria escutar também a voz do seu sistematizador, João Calvino, que escreve no Livro IV das Institutas da Religião Cristã, uma espécie de guia doutrinário para a Igreja Reformada: “Devemos suportar muito mais a imperfeição nos costumes e na vida, pois nisto é bem fácil cair, além do fato de que o Diabo é munido de grande astúcia para nos enganar.8 Ora, sempre houve os que, imbuídos de falsa persuasão de santidade absoluta, como se já fossem como que espíritos etéreos, desprezam o convívio de todos os homens nos quais percebam ainda subsistir algo humano. Tais eram outrora os cátaros e os donatistas, os quais se avizinhavam da demência desses. Tais são hoje alguns dentre os anabatistas que querem parecer haver avançado acima dos outros. Outros há que pecam mais pelo inconsiderado zelo de justiça do que por essa insana soberba. Pois, sempre que entre aqueles aos quais é anunciado o evangelho não vêem deste fruto de vida corresponder à doutrina, imediatamente julgam não existir aí nenhuma igreja. Certamente não deixa de ser justo que se sintam ofendido, porque damos ocasião, não podendo de maneira alguma escusar esta maldita indolência, à qual Deus não deixará impune, pois já começou a castigar com horríveis açoites.9 Portanto, ai de nós que com tão dissoluto desregramento de depravações delinqüimos que, por nossa causa, as consciências fracas se vêem feridas! Mas, por sua vez, nisto pecam aqueles que temos referido: que não sabem prescrever medida a seu agravo. Ora, onde o Senhor requer clemência, uma vez omitida, entregam-se inteiros a imoderada severidade. Porque, visto que não pensam existir igreja onde não há sólida pureza e integridade de vida, enquanto, pelo ódio das impiedades, se afastam da Igreja legítima porque julgam ser ela conivente com a facção dos ímpios. Alegam que a Igreja de Cristo é santa [Ef 5.26, 27]. Mas para que compreendam que a Igreja é, a um mesmo tempo, mesclada dentre bons e maus, devem ouvir aquela parábola da boca de Cristo na qual ela é comparada a uma rede em que são ajuntados peixes de todo gênero, sem que sejam selecionados até serem trazidos à praia [Mt 13.47-50]. Devem ouvir ser ela semelhante a um campo que, semeado de bom grão, é infectado de cizânias por ação dolosa de um inimigo, da qual não é expurgado até que a messe seja transportada para a eira [Mt 13.24-30]. Finalmente, devem ouvir ser ela uma eira, na qual o trigo é ajuntado, devendo permanecer escondido por sob a palha até que, joeirado com abano e peneira, finalmente seja recolhido ao celeiro [Mt 3.12]. Porque, se o Senhor declara que a Igreja haverá de labutar até o dia do Juízo com este mal, que seja onerada da mistura dos réprobos, em vão a procuram destituída de toda e qualquer mancha.”

Portanto, a igreja, santa e pecadora, não composta por anjos, mas por seres humanos, não deve ser a juíza, mas a mãe que acolhe, deixando pra Deus o juízo. A Ele pertence a salvação, não a nós! Assim sendo, a Igreja é e deve ser INCLUSIVA sob pena de pecar contra o Senhor. Pois a aliança não faz acepção de pessoas, antes, trata todo ser humano como iguais diante de Deus e dos outros seres humanos: todos carentes da Graça e do amor de Deus.

A Nova Aliança que Deus fez em Cristo conosco nos reconciliou com Ele, não nos apartou! A Nova Aliança não é somente para aqueles que são aptos, pois diante de Deus todos e todas somos inaptos. A Nova Aliança que Deus fez conosco, não impõe pré-requisitos como cor da pele, etnia, nível social, orientação sexual, ou qualquer outro critério que somente os homens se interessam para produzirem algo que Deus abomina: a diferença, a exclusão, a meritocracia, o desnivelamento, a não-igualdade, a injustiça.

Contudo, ainda que defendam uma literalidade das Escrituras, os fundamentalistas não conseguem enxergar, pelas mesmas Escrituras que tanto defendem com unhas e dentes, que elas anunciam uma Nova e Firme Aliança que nos trata a todos como iguais diante de Deus e que por isso, é vedado ao ser humano o papel de juiz no quesito salvação, pois a Nova Aliança que o Deus de Amor fez conosco não reconhece nenhum mérito e nenhuma obra humana como pré-requisito mas tão somente a livre e espontânea Graça de Deus, que elegeu, desde antes da fundação do mundo, seres humanos para dela fazerem parte. Antes de Deus decretar “haja luz”, houve Cruz, a Cruz que redime, a Cruz que liberta, a Cruz que nos tirou da rota de colisão com Deus e nos colocou reconciliados com Ele.

Sendo assim, amada Igreja, não sejamos nós os que pervertem a Boa Nova, antes, sejamos os anunciadores da Boa Nova, o verdadeiro Evangelho: Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo, por isso, todos e todas são chamadas ao relacionamento íntimo, pessoal, que se plenifica no coletivo, na Igreja, com o Senhor nosso Deus. Que a Comunidade Betel do Rio de Janeiro seja anátema, caso escolha viver sob outra bandeira exceto esta: a da Boa Nova do Evangelho, pura Graça de Deus, não destinada aos bons, aos bem postos, aos exclusivistas, mas a todos e todas. Sejamos anátemas se não anunciarmos a Cruz de Cristo, escândalo para os gregos, vergonha para os judeus, mas para nós, os que somos salvos, poder e sabedoria de Deus! Assim seja, até Jesus voltar! Amém e amém!

Rev. Márcio Retamero
Pastor da Igreja

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