
HOSANA AO REI!
Leituras Bíblicas: Salmo 118. 1-2, 19-29 - Mc 11.1-11
A “Semana Santa” é o período do tempo da Igreja, o Ano Litúrgico, que nos convida a olhar e meditar mais atentamente nos últimos dias de Jesus na Terra. Tudo é muito importante: as últimas palavras (inclusive as sete últimas na cruz), os últimos gestos, as últimas ordenanças (santa ceia). De hoje, o Domingo de Ramos ao próximo domingo, a Páscoa do Senhor, os cristãos e cristãs são convocados para trazerem à memória o que nos pode dar esperanças; trazer à memória não como nostalgia que pode gerar uma espiritualidade vazia, apática, mas como remédio mesmo que nos revigora, que nos restaura a saúde espiritual, a fim de nos levantar para a ação positiva no mundo, desde onde estamos: ser sal e luz como disse Jesus.
Os protestantes brasileiros são herdeiros de um tipo de identidade muito distorcida e perversa. Herdamos muito do puritanismo (no sentido histórico, não ético do termo). Puritanos são aqueles que advogavam uma igreja protestante que fosse diferente em tudo o que lembrasse a Igreja Católica Romana e, também, de um estilo de vida “santo”, baseado nas obras da carne, ou seja, um estilo de vida legalista como eram os fariseus. Os primeiros missionários que evangelizaram no Brasil, viram na Igreja Católica Romana que era hegemônica em nossas terras, o inimigo, o outro que tinha que ser combatido. Os católicos e não os sem religião eram os alvos dos primeiros evangelistas missionários. Por isso, nossas igrejas protestantes fizeram questão de se chamarem “evangélicas” (não perceberam que a Igreja Católica também era “evangélica” na medida em que era uma igreja cristã cuja liturgia, a missa, recomendava a leitura de não apenas um trecho, mas de quatro trechos da Bíblia, inclusive, dos Evangelhos, o que ainda é observado) porque assim, se distanciavam o quanto podiam da Igreja Católica, principalmente no aspecto exterior, cúltico e espiritual. O proselitismo religioso que herdamos, muitas vezes agressivo, grosseiro, baixo, tem ai as suas origens: o católico é o que deve ser demonizado como tudo o que se refere à ele, inclusive, suas práticas litúrgicas.
Assim sendo, herdamos uma visão estreita, estrábica, pervertida e ferina da Igreja Católica Romana e suas práticas e doutrinas. Povoamos nossas igrejas despovoando as Igrejas Católicas, sangrando suas fileiras e isso ainda é verdade para os dias de hoje, o que sinceramente, eu lamento muitíssimo! Perdemos com esta cosmovisão distorcida muito da história do cristianismo. Perdemos muito com uma visão exclusivista que insiste persistir entre nós e que alija pra fora o espírito ecumênico. Perdemos porque nossas liturgias tronaram-se pobres, austeras no mal sentido da palavra, simplesmente com a finalidade de construir uma identidade completamente diferente, para marcar território apenas, além de uma postura belicosa ao invés de pacífica para com nossos semelhantes que adoram e servem ao mesmo Senhor Jesus que nós servimos e adoramos.
Por todos os motivos acima, que não se esgotam nos exemplos dados, existem outros até mesmo mais feios eticamente e moralmente falando, nós, os “crentes”, os “evangélicos”, os protestantes, acabamos com as grandes festas litúrgicas da Igreja de Jesus e não da Igreja de Roma (a História prova isso e quem quiser saber mais, estudem os chamados Pais da Igreja que verão) empobrecendo nossa espiritualidade, dando mais ênfase no particular que no geral, o que descambou para um cristianismo egocêntrico, firmado apenas e tão somente na individualidade, que deu luz às todas as distorções em voga neste momento em nosso meio, inclusive as igrejas neo-pentecostais que se utilizam do sincretismo religioso para “pescar” em aquário alheio.
No plano litúrgico, que é o que nos interessa neste momento, acabamos com a Semana Santa e com os propósitos desta dentro da função litúrgica, cúltica e perdemos esta importante oportunidade de levarmos o povo de Deus à reflexão sobre o que a Semana Santa nos faz pensar: a paixão, morte e ressurreição de Jesus e suas implicações, suas conseqüências para as vidas do povo de Deus. Com o advento da igreja que se identifica como inclusiva, nossa identidade, temos a oportunidade de resgatarmos o que perdemos nesses 150 anos de presença “evangélica” no Brasil e reescrevermos uma história eclesiástica que seja reta, realmente bonita, ecumênica, pacífica, relevante culturalmente, sociologicamente, que pensa não apenas na espiritualidade individualista, mas também na espiritualidade global ou estrutural, que engloba os campos mais variáveis da existência humana. Uma igreja inclusiva que não seja proselitista, antes, que saiba respeitar a diversidade da tradição cristã (presente no cristianismo desde os primórdios e quem não sabe disso deve estudar e fazer um paralelo entre o livro dos Atos dos Apóstolos e as epístolas de Paulo, principalmente Gálatas). Uma igreja inclusiva que seja de fato inclusiva não apenas uma igreja inclusiva que só tem como alvo os gays e lésbicas, mas que honra e dá valor ao significado do termo inclusivo, que não é o de liquidificador que bate tudo e transforma a diversidade em algo homogêneo, mas que seja inclusiva na acepção máxima da palavra, que traz a noção de conjunto, de harmonia entre as partes, de respeito e tolerância. Desgraçadamente já está pervertida por alguns o conceito de igreja inclusiva que acabou resvalando para uma igreja tão velha quanto a que para trás deixamos e que reproduz as mesmas mazelas antigas, velhas e antiquadas; tendo como inclusão apenas o caráter antropológico do termo (gays e lésbicas). Fazer isso com a teologia inclusiva e com seu desdobramento eclesiástico é trair o legado de Troy Perry, fundador do nosso movimento.
Toco em todas essas feridas não sem ter com o que curá-las, mas apelando para o que pode nos sarar: a autêntica inclusão. Por ser uma igreja inclusiva no sentido real do termo, a Comunidade Betel do Rio de Janeiro não tem jogado fora o bebê junto com a água suja da bacia, mas dando ênfase e dando relevo ao que pode nos curar de fato. Assim sendo, aqui, resgatamos o que foi outrora e ainda é perdido, lançando pra bem longe de nós todo partidarismo, exclusivismo; para englobar e não excluir a diversidade da espiritualidade cristã e todos os outros aspectos que contribuíram para uma igreja evangélica bélica e adoecida. Por isso, entre nós, comemoramos a Semana Santa valorizando os Evangelhos que narram a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, suas últimas palavras e gestos. Hoje, Domingo de Ramos, tem início a nossa Semana Santa e a vivenciaremos com toda força e vigor, tendo como certo que Deus muito nos ensinará nestes dias e nos trará à memória o que pode nos dar esperança.
As leituras bíblicas do nosso culto de hoje, principalmente a leitura do Evangelho de Marcos, nos relembram e nos faz refletir seriamente sobre a chamada “Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém”. O Salmo de número 118, um canto de ação de graças, portanto, litúrgico, escrito para ser lido ou cantado por uma assembléia (ekklesia) nos traz à memória a Festa das Tendas, precedida de uma grande peregrinação à Jerusalém de todos que podiam ali estar para a celebração anual de suma importância para o povo de Israel. Peregrinação que era feita não sozinho, como um ser isolado, mas em grupo, cujas fileiras de peregrinos no caminhar nos remetem à noção de procissão. Enquanto caminhavam cantavam e oravam; comiam e celebravam; até que chegados à porta do Templo, adornado com ramos, ofereciam o que traziam voluntariamente ao Senhor como expressão de ação de graças pelos livramentos dos inimigos externos e internos: “Daí graças ao Senhor porque é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre”.
Jesus inicia com a sua viagem rumo à Jerusalém, o cumprimento em obediência à vontade do Pai que o enviou ao mundo para redimi-lo e reconciliá-lo com Ele. Quando entra na Cidade Santa que paradoxalmente mata os profetas e faz questão de não escutar, de não dar ouvidos às palavras do Senhor, já era afamado entre judeus e não judeus. Sua pregação que dava relevância à Basiléia, ou seja, ao Reino de Deus; seus atos de cura e exorcismos que remetiam ao tempo escatológico do Messias; sua oposição sistemática a tudo o que gerava morte, fruto daquele sistema de dominação política e econômica; tudo isso em conjunto fazia Dele um rei, o Messias tão esperado, que libertaria Israel de uma vez por todas do subjugo do mais forte, fazendo dela o centro do mundo, o lugar para onde todos os povos correriam e adorariam o Senhor, reconhecido então, como o Criador e Sustentador do universo.
A identificação de Jesus como este Messias não foi apenas algo a Ele imposto pelos de fora, pelos que o conheciam somente superficialmente, mas igualmente pelos de dentro, seus seguidores. Mais tarde em Jerusalém, perguntarão: quando será o tempo em que a restauração de Jerusalém acontecerá? (At 1.6). Isso, esta pergunta, atesta para o fato de que mesmo após a Ressurreição eles não tinham entendido a natureza e o propósito deste Messias, embora com Ele vivessem três anos, ouvindo de sua própria boca, entre outras coisas, “meu reino não é deste mundo”. A chamada “Entrada Triunfal em Jerusalém” confundiu mais que esclareceu. Contudo, se refletido com calma, dá indícios do que Ele afirmava: seu reino não era deste mundo.
O contexto da Entrada Triunfal é a celebração da Páscoa Judaica, os dias que antecediam esta grande festa que trazia à memória a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito e a peregrinação no deserto. Não eram mais escravos no Egito, mas continuavam escravos existencialmente, agora, de Roma. Jamais deveríamos perder de vista o contexto histórico, existencial, de Jesus, dos que o seguiam e de todo o povo que vivia na chamada Palestina. Tais festas religiosas para além do caráter espiritual traziam consigo uma carga muito explosiva de conteúdo político, e isso nos lembra que embora seja possível viver uma espiritualidade desencarnada da História (o que traz funestas conseqüências) existe outra possibilidade de viver e exercer uma espiritualidade que não perde a dimensão existencial, antes, a afirma, fazendo com que o sujeito que crê, intervenha em sua realidade, transformando-a positivamente.
Jesus planeja sua entrada em Jerusalém nos pequenos detalhes (Mc 11.2-7): planeja uma entrada solene, régia, embora humilde, não bélica. O conjunto dos detalhes nos dá a entender realmente uma entrada régia: a multidão presente para a festa que o aclamava; o jumentinho, que cumpre a profecia de Zacarias (Zc 9.9) e que remete à lembrança de Salomão, que quando aclamado rei, entra na cidade sobre os lombos de uma mula (1Rs 1.44); os mantos ao chão como tapete e os ramos igualmente que faz lembrar a entrada de Jeú quando proclamado rei (2Rs 9.13); a aclamação (vers. 9 e 10) com “hosana” que era um grito por socorro, uma súplica de auxílio, portanto, que unida à expressão “bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai!”, reforça o caráter messiânico e o cumprimento da promessa; a visita ao Templo, cuja inspeção e cuidado era prerrogativa real, ou seja, tudo, absolutamente tudo, evoca a entrada triunfal de um rei! Mais tarde, na sexta-feira, dia de sua morte, escreverão numa tábua a ser fixada no topo do veículo de sua execução, a cruz: “Jesus, Rei dos Judeus”.
Os sinais da instalação do Messias no trono de Davi estavam presentes e eram claros para os contemporâneos da cena; o que não estava claro para eles e que acabou em frustração (vejam o relato de Lucas sobre os discípulos de Emaús) era que este Jesus era Rei e Messias, contudo, de um reino diferente, inesperado e até mesmo desconhecido em sua dimensão verdadeira: um rei de um reino que não era físico. Lembravam que Ele tinha dito que era realmente Senhor, mas não se lembravam da outra parte: meu reino não é deste mundo e serei entregue e morto.
Jesus é rei que entra na cidade da paz (este é o significado da palavra Jerusalém) como rei da paz: sem corcel, sem espada, sem séquito de poderosos, mas acompanhado de peregrinos do povo. Embora os detalhes nítidos de um tipo diferente de rei, confundiram tudo e só mais tarde, bem mais tarde entenderam o significado teológico de tudo aquilo, para além do histórico. Há aqui uma grande lição para nós, seus seguidores, no século XXI.
A primeira lição que deveríamos aprender aqui é o caráter não belicoso do Reino de Deus. O Reino de Deus é um Reino de paz e vida, não de guerra e morte. Olhando para o passado, percebemos o quão distante do projeto original do cristianismo nossos antecessores andaram e realizaram. Na Idade Média, cruzada: cristãos matando “infiéis”; cristãos matando cristãos. Além de matar, confiscavam os bens. O cristianismo quando vira religião aliada ao poder político e econômico, ou seja, ao reino que pertence a este mundo, é capaz de produzir mazelas tão mortíferas quanto a que o mundo sem Deus produz. As guerras de religião no contexto da Reforma Protestante também é exemplo disso. Quando o projeto de Deus que é um reino de vida e paz é confundido com um projeto político e econômico, o resultado é exatamente o contrário daquilo que o Reino de Deus é capaz de produzir. Sabemos que no Brasil existe um projeto político e econômico por parte da “igreja” evangélica. A cada sufrágio municipal, estadual e federal, percebemos as propagandas políticas infestadas de “crentes” que, geralmente com a bíblia na mão ou com os velhos e carcomidos jargões, pedem votos. Quem entre nós jamais ouviu: “O Brasil é do Senhor Jesus”? A frase revela, para além de uma espiritualidade imbecil, um projeto de poder. O número de parlamentares e membros do Executivo brasileiro que são “crentes”, “evangélicos” é muito grande. Pergunto: o resultado do trabalho dessa gente nas casas de Lei tem produzido bem-estar social, progresso, igualdade social? Você que votou num “evangélico” nas últimas eleições que acabou sendo eleito, acompanha o que seu candidato depois de eleito, tem feito a favor do povo? Eu vez em quando ouço da boca de algum igrejeiro que o Brasil precisa de um presidente da república evangélico e toda vez que ouço isso, penso: eu já vi esse filme! Porque olho para a História e vejo o que o cristianismo produziu quando se aliou aos poderes deste mundo: a primeira coisa é esquecer a natureza do Reino de Deus e se aliar às forças do mal que opera nos filhos da desobediência como diria Paulo. Aprendamos de uma vez por todas: se gera morte; se gera desigualdade social; se gera miséria; se gera, em suma, morte e guerra, nada tem com Deus e com o seu Reino que é de paz e vida.
A segunda lição que tiramos do episódio que trazemos hoje à memória, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, é a nítida percepção, o claro entendimento, que algo de muito errado ocorre atualmente na igreja evangélica brasileira, principalmente no ramo desta que se identifica como “neo-pentecostal”, pois a teologia propagada por este ramo do cristianismo brasileiro confunde a natureza do Reino de Deus e a essência da mensagem do Evangelho. Não sei se você se lembra, mas há bem pouco tempo atrás, era comum vermos nos carros dos “crentes” um adesivo que “pegou”: “Sou filho do Rei”, era a frase, a propaganda. Lida superficialmente, a frase é ingênua e nada contém de errado! Contudo, ao nos darmos conta do “espírito desta letra”, percebemos que esta frase é mote de reivindicação de riquezas monetárias, quantificáveis: “tenho que ser próspero materialmente falando, porque sou filho do Rei.” A bobagem é tamanha que os conscientizados verdadeiramente não podem se calar, mas tomar posição e posição de oposição, não de integração ou aprovação. Porque simplesmente a teologia da prosperidade é uma mentira e uma mentira do diabo! A África está ai para provar isso, bem como a China e a Europa de maioria atéia! Na África cresce as igrejas sem, contudo, crescer em qualidade e em quantidade a vida miserável daquele povo! Na China, o regime comunista ateu produz desigualdade social e uma parcela pequena de abastados, até onde eu tenho conhecimento, não pertencem a nenhuma agremiação evangélica para darem razão aos seus sucessos monetários. Na Europa, talvez a população fora da América do Norte que mais tem poder de compra, ninguém precisa de Jesus para ter sucesso na carreira, conseqüentemente, dinheiro! As pessoas enganadas por esta nefasta teologia deveriam parar e pensar nesses dados reais a fim de darem fim ao pensamento mágico alimentado por esses líderes de igreja sem noção e enganadores, pois a tal prosperidade é a deles, a do bolso deles; é a prosperidade da família deles! Jesus jamais prometeu riquezas materiais aos que o seguiam e quando o Apóstolo Paulo foi levantado, revelou o Senhor que ele era um vaso que seria muito usado por Ele, porque daria testemunho acerca do Evangelho diante de poderosos, reis e juízes e que muito sofreria pelo Evangelho. Sofreria! E você pode constatar o cumprimento disso nas cartas de Paulo! A riqueza maior de Paulo era outra; era invisível, não quantificável. Possuía o Apóstolo a verdadeira prosperidade: paz em meio às batalhas, alegria em meio à dor, sustento em meio à necessidade, temperança, domínio próprio e todos os frutos do Espírito. Não me consta que Paulo era rico financeiramente falando. Ignoro que os apóstolos eram. Não leio no Novo Testamento nem uma linha sequer deste “sucesso financeiro” por parte da Igreja e se você conhece, por favor, me mostre! Irmãos, em nome de Jesus, deixemos de lado as bobagens que são ditas em nome de Deus. Isso não é algo novo, o falar bobagens em nome de Deus, é tão antigo quando o mundo! Aprendamos, em nome de Jesus, que a verdadeira prosperidade é a de Paulo, de Pedro, de Madalena, de João e de todos os heróis da nossa fé! Vamos nos opor ao evangelho de ‘e’ minúsculo que aí está e proclamemos o único e verdadeiro! O Reino de Deus não é comida, nem bebida, nem dinheiro, nem prosperidade financeira: o Reino de Deus é alegria e paz, primeiro na dimensão interior que ao se extravasar em nossas ações no mundo, produzem alegria e paz na vida.
A terceira lição e não menos importante, está posta na última frase: o Reino de Deus de paz e justiça, ao ser instalado no coração do ser humano, produz paz e justiça e alegria que se concretiza em nossas ações no mundo. O Reino de Deus, disse Jesus, não está lá, ou cá, mas dentro de cada um de nós. Quando ele toma a direção de nossas vidas, ele faz com que nossas ações se tornem tal qual ele é: feliz, justo, pacífico. Aqui está a dimensão social do poder do Evangelho. Jesus não disse que somos chamados para sermos sal da terra e luz do mundo? E o que isso significa senão o nosso intervir neste mundo a partir dos valores do Reino que em nós se instalou? Infelizmente, desgraçadamente, quando na maioria de nossas igrejas se fala do Reino de Deus, fala-se de uma entidade etérea, impalpável, invisível, inatingível, utópico, espiritualizado demais e, por isso, longe demais da realidade de cada um de nós!
Volto a me lembrar do capítulo 1 do livro dos Atos dos Apóstolos já acima citado. A pergunta dirigida a Jesus pelos seus seguidores: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (At 1.6), deve ter desanimado muito o Senhor! João Calvino, comentando este texto, diz que os erros são tantos quantas são as palavras! Lembro, da atitude deles ao verem o Senhor em sua ascensão aos céus e a palavra a eles dirigidas pelos anjos: “Varões galileus, porque estais olhando para as alturas?” (At 1.11), como que os intimando: parem de olhar para o alto porque o trabalho de vocês é testemunharem sobre o Reino de Deus no aqui e no agora deste mundo!
Nós temos olhado muito para o alto e nos esquecido da terra! Temos olhado muito para o céu e nos esquecido do testemunho. Temos olhado muito para o alto e nos esquecido que a oração sacerdotal de Jesus foi para que o Pai nos livrasse do mal, não para que nos tirássemos do mundo, o local de nossa missão, o palco de nosso testemunho, o lugar onde devemos intervir sendo sal e luz.
Existe uma dimensão existencial para os cidadãos do Reino de Deus que tem sido negligenciada por nós! Na hora de olharmos para o céu, seja em nossas igrejas, seja em nossas casas em oração, somos os mais espiritualizados dos seres. Contudo, quando baixamos nossos olhos para este mundo que perece ao nosso redor, agimos conforme não a lógica do Reino de Deus, mas conforme a lógica do reino deste mundo. Nossas ações não geram alegria e paz. Nossas ações não geram igualdade social. Nossas ações não geram libertação (porque quando falamos de libertação, o conceito já vem metafísico, espiritual apenas); nossas ações não geram mudanças estruturais, nem mesmo pessoais, pois se gerassem, não responderíamos desta maneira ao chamado do Senhor.
Eu sei que muitos se contentam com o ser cristão apenas da cara pra dentro, como se isso fosse possível, assim, apenas internamente! Eu sei que muitos de nós gostamos de usar a religião conforme Karl Marx já denunciou há quase dois séculos, como ópio (o crack e a cocaína na época de Marx), ou seja, gostamos de usar a religião como meio de entorpecimento dos sentidos a fim de não darmos conta da realidade que nos cerca e usar da igreja e do evangelho como fuga do mundo real. Eu sei que muitos de nós andamos na lógica egocêntrica da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, ou, da lógica do lucro pelo lucro, não se importando se o lucro alguém expropria, tomando como nossa lógica a lógica do mercado. Eu sei que muitos de nós não gostamos de comprometimento real e que preferimos a espiritualidade oca e vazia dos arrepios domingueiros, das canções melosas que nada produzem de real, dos tremeliques que entorpecem e extasiam, mas que passa e gera mais fome e descontentamento. Eu sei que muitos preferem aquela pregação que gera bastante alvoroço, rebuliço de aleluias e glórias ao sermão que nos faz crescer e que para isso mexe com todas as nossas estruturas desestruturando-nos. Eu sei que preferimos as profecias de casamento, as profecias de sucesso financeiro, as profecias que são o que dizem delas, “recados” de Deus, às profecias como a de Isaías, Jeremias, Oséias, Amós, Ageu, Habacuque, Zacarias, Malaquias e todos os profetas do Senhor que levantaram a voz para denunciar a injustiça socialmente praticada, a idolatria do coração humano (que se não adora imagens de pedra e gesso, adoram o deus deste mundo, Mamon). Estudem os profetas e vejam o quanto da profecia deles requer de ação, de intervenção por parte do povo de Deus na realidade que os cerca, nada tendo a ver com a alimentação de uma espiritualidade que só fica olhando pro alto.
Enfim, meus irmãos e irmãs, eu sei que tudo isso é verdade, mas tudo isso não é cristianismo! Simplesmente assim: isso não é cristianismo! O auto-engano é a via dos que querem fazer do Leão da Tribo de Judá um gatinho de unhas paradas, não de quem sonha e age a partir dos valores do Reino de Deus. E, se você se encaixa numa daquelas opções acima, se você se vê entre um daqueles tipos acima descritos, eu creio que este é o dia e esta é a hora de você repensar seu cristianismo e mudar o que tem que ser mudado em sua vida. Sabe, naquele dia, no dia do Senhor, comparecerão diante Dele alguns que dirão que em seu nome expulsaram demônios; que em seu nome evangelizaram; que em seu nome fizeram isso e aquilo e mais um pouco. E o próprio Jesus disse que neste mesmo dia, após ouvir as reivindicações deles, dirá: apartai-vos de mim, não vos conheço! Infeliz será aquele que Dele ouvir esta sentença! Não seja eu e você os que escutarão isso! Sejamos os outros, os que ouvirão: vinde benditos de meu Pai e tomai posse do Reino que está para vós preparado desde antes da fundação do mundo! Amém!
Mude o que tem que ser mudado na sua percepção estreita do cristianismo, meu irmão e irmã! A bênção para nós e para a nossa realidade a partir de nós é tão certa como a certeza que tenho que vocês estão me ouvindo e que o Espírito Santo está trabalhando neste momento, no coração de cada um de nós! Assim seja! Amém!
Rev. Márcio Retamero
Pastor da Igreja.
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